NOSSO ANTIGO MILITANTE…

Postado em 17 Agosto, 2008
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Ofim de tarde dissolvia-se em calor quando recebemos em nossa casa o amigo Carioca, o Francisco Nepomuceno (que leva esse nome por ter nascido no Seringal Guanabara, no verdejante Vale do Iaco).
 
Eu estava com a cabeça pesada de tanto preparar aulas de uma Oficina de Filosofia que estou ministrando aos alunos do Instituto São José e Imaculada Conceição. Então, conversar com o Carioca seria muito bom, e foi. O papo fluiu agradável, com altos de seriedade e descontração.
 
As pessoas se enganam com o Carioca.
 
Acham-no um articulista frio, irônico e calculista. É meia verdade.
 
Participante direto de todas as engenharias políticas da esquerda acreana nos últimos 20 anos, o Carioca temperou-se. E soube blindar-se, possuindo uma autonomia de pensamento rara nesse mundo nem sempre arejado de autenticidade.
 
É muito bom conversar com ele. Pela erudição, pela visão apurada, mas também pelas tiradas cáusticas, sentenças absolutas e sínteses hilariantes, que vai armazenando numa biografia que não começou agora.
 
Para muitos, Carioca é o modelo (no bom sentido) do pragmatismo, da resolutividade, dos lances de xadrez.
 
Mas, no fundo, é um gozador, um bom camarada, solidário e sensível.
 
Professor da UFAC, é daqueles que estuda muito (lê dois livros ao mesmo tempo), tem cultura, assiste bons filmes, toma umas cervejinhas com a sua Raquel, e ainda bate uma pelada pelos sábados.
 
E conseguiu impedir que uma das maiores tragédias da nossa geração se instalasse na sua vida: o sentimento da desilusão, da apostasia vulgar, do desencanto.
 
Carioca ainda arranja tempo para se ocupar com a ideologia, com o futuro.  “O horizonte que vejo para além do pára-brisa, se confrontado com o retrovisor, é muito maior, muito mais importante, se comparado ao que fizemos até agora”, afirma em alusão às responsabilidades das futuras gerações com a Democracia, a consciência política progressista e o ideário socialista.
 
E ainda se preocupa com os pensamentos, porque teve uma escola poderosa, a nossa escola: o movimento estudantil.
 
Eu o conheço desde 1975, quando ele se destacava como um dos “matemáticos” da sala e o melhor aluno de Inglês (lembro que foi ele que traduziu para mim "Wish you were here", canção que é um dos emblemas do Pink Floyd). Depois, ele se tornou um dos grandes jogadores da história do futebol (no Juventus, era o terror do meu Atlético Acreano), entrou para a UFAC e foi seduzido pelo curso de História, o mais subversivo de todos na luta contra a Ditadura, e mergulhou na militância, cerrando fileiras no clandestino Partido Revolucionário Comunista – o PRC (que operava dentro do PT).
 
Lembro do Carioca nos corredores incandescentes e revoltados da UFAC, principalmente quando ele começou a se destacar como liderança, ao lado do Binho, da Marina Silva, Patrycia, Herbert, Cacá, Monteiro, Júlia, Elione e outros quadros, todos do PRC.
 
Eu estava “do outro lado”, no também clandestino Partido Comunista do Brasil – o PC do B.                                                                                             
 
Nessa época, início dos anos oitenta (século passado, meu Deus!), a sociedade brasileira se erguia em favor das liberdades democráticas, na luta pela anistia, reforma agrária, pelo direito de votar para Presidente da República). E a esquerda, naturalmente, travava uma luta entre si pela hegemonia na condução e influência política desses processos. A luta interna entre a esquerda se dava, ora fratricida e sectária, ora – mais raramente – unitária em alguns pontos comuns, objetivos gerais.
 
Aqui no Acre, fervilhava o movimento.
 
Os sindicatos de trabalhadores rurais estavam sendo criados, as comunidades eclesiais (com base na Teologia da Libertação) da igreja católica se instalavam nos bairros, o PT foi criado, o movimento estudantil secundarista lutava pelos grêmios e a meia-passagem nos ônibus (Sim! Essa foi uma vitória obtida por nós em 1979!). O teatro, cinema, artes plásticas, literatura, festivais, tudo conspirava em favor das liberdades.
 
E a UFAC era um espaço estratégico.
 
O Diretório Central dos Estudantes - DCE ganhava uma importância maior, por conta da reconstrução (na coragem, desafiando a Ditadura) da União Nacional dos Estudantes – a UNE. Dirigi-lo significava espraiar as bandeiras nacionais na juventude universitária, nos potenciais formadores de opinião.
 
As lideranças do curso de História (óbvio) deram o ponta pé inicial para o surgimento dos Centros Acadêmicos (CAs) e fizeram a primeira greve na UFAC, em solidariedade a professores demitidos pela reitoria (que rezava piamente na cartilha do regime militar). Aí, vieram os CAs de Pedagogia, Direito, Economia, Biologia, Heveicultura… e a direção deles era disputada ferrenhamente entre os militantes da esquerda.
   
 
Basicamente, três “tendências” estavam organizadas: Viração (PC do B), Caminhando (PRC) e Liberdade e Luta (Toinho Alves, Antonio Manuel, e acho que a Naluh Gouveia, afinados com o pensamento de Leon Trotsky). A “tendência” era a forma utilizada para que esses partidos influenciassem “legalmente” os estudantes, de maneira “sub-reptícia”, para usar um termo que o Carioca gosta.
 
Em 1983, eu ganhei a eleição do DCE pela Viração, derrotando a Caminhando, liderada pela Marina Silva (até hoje eu brinco com ela: “ao menos uma vez eu ganhei de ti…”). No ano seguinte, concorri à reeleição com a chapa “Coração de Estudante” (um erro estratégico naquele ambiente de radicais e permanentes mutações). Perdi para a chapa “Aroeira”, com Ademir, Patrycia, Gláucio e… isso mesmo: o Carioca!
 
Assim, em 1984, o PRC passou a liderar o movimento estudantil na UFAC. E foi no DCE que o Carioca começou a despontar.
 
De ultra-super-tímido, passou a falar em assembléias de estudantes, professores e funcionários, trocando a prática profissional do futebol pela arte do discurso. Não parou mais.
 
 E naquele final de tarde quente, relembrando o início de tudo, tivemos a alegria de constatar que fazemos parte de uma geração vitoriosa.
 
Mesmo com nossas deficiências e limitações estamos tendo capacidade de resposta para os desafios apresentados. Permanecemos ganhando o campeonato com grandes atletas e com uma torcida cada vez maior.
 
E o Carioca continua jogando duro, mas com arte. Ataca decidido e sabe defender os amigos como se fosse o último zagueiro. É por isso que até os adversários o respeitam.
 
Ele tem um princípio interessante: mesmo sendo Assessor Especial do Governador, e assumindo cargos importantes nos últimos anos, procura viver como se sua renda fosse somente a do seu trabalho original, o de professor.
 
Isso se chama ética.
 
Só tem um defeito: quase nunca atende o celular… Aí fica difícil marcar outro bom papo, em outra tarde quente desse agosto ou setembro.

 

PARA O JOÃO SENA…

Postado em 10 Agosto, 2008
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Dizem que eu estou ficando a cara do meu pai.
Deve ser elogio ou saudade mesmo.
Fico garimpando a mente em busca das lembranças mais antigas e a primeira coisa que me vem é a velha casa com duas águas, de madeira e telhas de barro, a longa varanda virada para as tardes e a rua que dava para o aeroporto.
A rua me encantava. Nem tanto pelos aero wiles, rural e jeeps que passavam. Mas pelos tufos de capim verde-amarelados que cresciam nela, desafiando os pneus.
O quintal era uma imensidão ainda por ser explorada. Da cozinha, ficava vendo as árvores escondendo as luzes do sol, criando zonas de mistérios distantes.
Era daquelas casas com janelão na frente, com quartos e cozinha interligados e duas portas laterais.
Dizem, também, que quando eu era bebê chorava feito um desesperado sintonizando, com grilos e rãs, homéricas noites atormentadas.
A cadeira de embalo, com madeira e fibra vegetal era alvo de disputa febril entre minha irmã e eu. Ela tinha majestade. Mesmo puída e com os arcos desgastados, transformava-se num trono de onde se via o mundo quando nossos pés ainda nem tocavam o assoalho.
Eu adorava aquela cadeira. Principalmente depois de saber que nela meu pai havia atravessado as noites, na luz da lamparina ou do Aladim a querosene, movendo sombras dançantes pelas paredes, tentando conter meus choros infindáveis. Que rosto eu via?…
Meu pai aprendeu a fazer comércio (soube que ele arrendou um ponto famoso de Rio Branco, o “Bar Xapuri”), o que justificava a existência de um botequim do lado da casa, de vida tão efêmera que hoje para mim não passa de um pálido lampejo.
Minha infância foi a casa. Tanto, que uma das maiores emoções da minha vida foi a de ter tido “coragem” de atravessar a rua, e isso só aos sete anos, e de tê-la contemplado tão de longe pela primeira vez. Linda! Sem pintura, mas meio azulada, como ficam as tábuas cansadas do sol. Sem adereços importantes, mas devidamente guardada por duas espadas de São Jorge nas extremidades das biqueiras. Linda, por ser tão simples.
Quando meus ombros já duelavam com os joelhos do meu pai, ele pegava minha mão e conduzia-me ao passeio encantado dos domingos. Eu, calção azul de elástico, blusa de murim com botões brancos e sandalinhas japonesas.  Descíamos a ladeira e mais na frente apertava a sua mão, nervoso, porque passaríamos na frente do “abrigo” das crianças pobres (eu tinha medo de ir para lá). Aí, vinha o prédio da Saúde, do Hospital de madeira e logo depois do Instituto São José, subíamos um barranquinho que dava acesso à lateral da Catedral, para assistirmos à missa de incenso e coisas ininteligíveis, mágicas e fantasmagóricas para mim.
Depois da missa, quando as pessoas se espalhavam, íamos ao mercado velho, tomando cuidado para desviar das lacerdinhas dos benjamins que ficavam na frente do Palácio. Na rua das Catraias, passávamos por uma casa verde-escuro especial: “A Normalista”, papelaria e livraria que tinha uma atendente que eu admirava muito: uma moça morena, alta, de sobrancelhas preocupadas e, por vezes, sorrisos francos.
No porto, depois de descer a longa escada, eu ficava torcendo para que o meu tio-avô Otávio, que veio do seringal Maranguape, fosse o catraieiro da vez. Ele remava com leveza, poder e domínio. Adorava o som dos remos mergulhando nas águas esverdeadas do rio estreito e quase seco, além do balançar do toldo branco sobre as nossas cabeças (que parecia uma vela de barcos sem ventanias e virgens de mar). Aí, subíamos a escadaria “do outro lado”, passávamos pelo tacacá do Chicute (que só abriria pela tarde) e entrávamos no Paraíso: o sítio dos meus avós (onde hoje é o Parque Capitão Ciríaco), de árvores encantadas, seringueiras, cacau, cupuaçu, e almoço na casa altíssima, sentindo o tempero da lenha no arroz e vendo a copa das árvores à altura das nossas mãos… E meu pai rindo em uma das cabeceiras da mesa.
Conheci o olhar do Orgulho quando estava com um “corte raso”, recruta, tufinho de cabelo na cabeça, porque foi ali que senti a mão dele me acariciando, enquanto falava para os amigos, na frente da Casa Zeque, que eu já iria estudar, com seis anos! Conheci o olhar da Satisfação quando, andando pelas ruas do comércio de Guajará Mirim, consegui ler, ao seu lado, o primeiro nome da minha vida: “bazar”. Conheci o olhar de Riso, quando por mim mesmo decifrei para ele o enigma do Papai Noel, descendo a ladeirinha do Cine Biriba, no Papoco, entre os mistérios da pobreza e tristeza humanas daqueles casebres.  Conheci o olhar de Dor quando ficamos, eu e minha irmã, quase sem os presentes de um Natal distante, e o olhar da Apreensão quando ele nos colocou, aos nove, dez anos, para trabalhar, cuidar, de um comércio que havia montado.
Conheci olhares e silêncios, porque conversávamos pouco.
E conversamos menos ainda depois que ganhei consciência e entrei na militância política contra a Ditadura Militar. Como a minha mãe, ele receava em perder a autoridade e, com isso, oferecer menos proteção. Ele temia que eu fosse preso, ficasse “marcado”, arruinasse a vida. Reclamou quando desisti do curso de Direito e entrei de cabeça no mundo da política. Mas foi me acompanhando discretamente enquanto eu ia me tornando uma liderança estudantil, as pessoas falando, comentando, saindo nos noticiários.
Difícil foi quando me declarei comunista. Lembro da testa enrugada, olhos baixos, o coçar nos cabelos, do “mas, rapaz, tu vai te meter logo nessa?…” Acho que para ele era o fim do caminho, enquanto para mim, o começo da estrada.
Com o passar dos anos ele constituiu nova família, sentiu os ares da democracia que chegava ao Brasil e, com isso, ampliou sua tolerância e compreensão.
Um dos maiores orgulhos que ele me deu foi quando saí candidato a Vereador pelo Partido Comunista do Brasil, em 1988. Mesmo sem nenhuma, absolutamente nenhuma, chance de vitória, ele se dispôs a me acompanhar no dia da eleição. E fomos juntos. Mesmo com sua discrição e timidez, ele me acompanhou nas sessões, fez boca de urna, distribuiu santinhos e cédulas. Ele sabia que eu não ganharia, mas quis ficar do meu lado, me fazendo vitorioso. E isso era o que importava para nós dois…
Dez anos depois, em 1998, quando ele já estava “Jorge Viana”, se entusiasmou muito com a possibilidade de eu me eleger deputado federal.
Eu já tinha sido eleito vereador (1992), candidato a Federal em 1994 (perdi por 14 votos de legenda), e vinha de uma derrota para a Prefeitura de Rio Branco por uma diferença ridícula de 3%.
Ele estava entusiasmado. E eu todo alegre por poder dar para ele uma grande vitória.
Mas aí, o câncer se instalou em uma de suas pernas.
Em plena campanha, com a compreensão dele e de meus irmãos, eu só podia passar os domingos ao seu lado. Podia haver o melhor comício, a maior atividade, eu cancelava, não participava, ficava com ele… E foi assim que voltamos a conversar naquelas tardes quentes e tristes…
Perto de dois meses antes das eleições, meu pai partiu num entardecer, enquanto eu dava uma palestra para estudantes.
Eu o havia visitado minutos antes no hospital.
No meu íntimo, sentia que ele tinha pouquíssimo tempo.
Aquela palestra eu dei para ele, com um nó imenso na garganta.  Queria que ele partisse me vendo falando para os estudantes…
Fui eleito o Deputado Federal mais votado da história do Acre, até então. E o Jorge Viana ganhou o Governo. E a nossa geração começou a fazer história.
Mas quando, pela primeira vez entrei no Plenário da Câmara, já como Deputado Federal eleito, foi para o meu pai que meu pensamento se dirigiu. E eu o senti ao meu lado enquanto caminhava aos microfones, do mesmo modo, do mesmo jeito, como naqueles domingos em que ele me conduzia à missa e ao almoço nas alturas…
 
 
Meu pai se chamava João de Sena Souza. Ele nasceu no Seringal Pirapora, Amazonas. Foi funcionário público da Secretaria de Educação e do MOBRAL. Teve sete filhos: Eu, Sônia, Neuma, Alessandra, Fabrício, Rafael (in memoriam) e Larissa. Todos com saúde.
 
 

NOVOS JORNALISTAS,MESTRES DE SEMPRE…

Postado em 3 Agosto, 2008
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         A longa cortina verde-aveludada do Teatrão foi o pano de fundo perfeito para a cerimônia de formatura da segunda turma de Jornalismo do Instituto de Ensino Superior do Acre – IESACRE, na última quinta-feira, 31 de julho.

         A turma de 46 formandos levou o nome do lendário jornalista Garibaldi Brasil e tive a imensa honra de ter sido escolhido como Patrono.

         Parece um sonho.

         Quando ainda engatinhava nesse mundo, nessa profissão, recordo-me que via o Gari, o Zé Leite, Elson Martins e o Sílvio Martinello, como figuras mágicas, detentoras de segredos, de arte, capazes de botar no papel preciosidades inatingíveis. Assim mesmo. Eles eram e são os grandes do jornalismo impresso acreano (entre outros bambas) que tive a oportunidade de conhecer nos meus primeiros passos.

         Não convivi diretamente com o Gari e até hoje sinto não ter sido pautado pelo Zé Leite. Mas o Sílvio e o Elson, além do Suede Chaves, foram meus pacientes professores.

         Essa era a nossa verdadeira Universidade.

 Jornalista Garibaldi Brasil, Zé Leite, Elson Martins e Sílvio Martinello: professores de gerações. 

São muitos os jornalistas emblemáticos que durante décadas descobriram e incentivaram talentos. Pessoas que eram sinônimo de estímulo, da gozação franca, das ácidas críticas, da arquitetura de pensamentos. Eles foram capazes de formar gerações de jornalistas no calor das redações e no tamborilar das velhas remingtons e das linotipos de chumbo quente.

         Lembro de um quadro singelo, propositalmente colocado na sala da velha redação de “O Rio Branco”, com uma frase que era o terror dos “focas”, os iniciantes: “Escrever é fácil ou impossível” (atribuída a Vitor Hugo ou a William Faulkner). Lendo-a, os noviços incautos se sentiam na ante-sala do inferno grego, em pleno Hades, moucos e aflitos pelos latidos e mordidas do cão Cérbero, o das três cabeças, que os recepcionava.

         Se o quadro era um alerta ou uma gozação, até hoje não sei, talvez porque ainda seja impossível, para mim, escrever como aqueles geniais jornalistas.

 
varal
varal  

A antiga Linotipo (inventada por Ottmar Mergenthaler, em 1890)
e a velha Remington: os “computadores” de 25 anos atrás,
nas redações dos jornais do Acre.

   

Fiquei voltando ao passado, enquanto observava os formandos subindo os degraus do palco para receber os diplomas, com sorrisos de vitória.

         E a cada aplauso eu me lembrava dos olhos meio lacrimejantes do Garibaldi Brasil, do rosto de eterna gozação do Zé leite, do silêncio alto do Elson Martins e da visão de lince do Sílvio Martinello, nossos reitores de uma universidade chamada Vida.

         O Milton Nascimento canta que “se muito vale o já feito, mais vale o que será”.

Mas, para essa nova turma de jornalistas acreanos, e como dever de um emocionado patrono, ofereço o seguinte pensamento inspirado em Isaac Newton: se hoje conseguimos ver mais longe, é porque estivemos apoiados em ombros de gigantes…

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RESPOSTA DA LEILA JALUL:

 

 E  POIS CORONISTA SOU.

Se souberas falar também falaras
também satirizaras, se souberas,
e se foras poeta, poetaras.

Cansado de vos pregar
cultíssimas profecias,
quero das culteranias
hoje o hábito enforcar:
de que serve arrebentar,

por quem de mim não tem mágoa?
verdades direi como água,
porque todos entendais
os ladinos, e os boçais
a Musa praguejadora.
Entendeis-me agora?

Permiti, minha formosa,
que esta prosa envolta em verso
de um Poeta tão perverso
se consagre a vosso pé,
pois rendido à vossa fé
sou já Poeta converso

Mas amo por amar, que é liberdade.

 (Gregório de Matos)

   
vi vi

O assunto é sério. Não te respostei na hora para não parecer uma doidivana. Dormi uma noite mal dormida e sonhei um sonho mal sonhado. Um sonho medonho daqueles que “às vezes a gente sonha e se urina toda e baba na fronha”.
Pois bem, prestenção:
EU SOU CORONISTA. Acho que posso ser burilada e fazer tudo que você pede, desde que seja no formato de crônica. Uma estrutura de romance, meu filho, é para pessoas que têm tino, senso crítico e tempo. Tempo é paciência. Não posso sair assim doidona da baladeira, com uma bandeira de táxi, LIVRE - levantada em cada mão, vendo um corso de astronautas bailando ao derredor e me chamando para bailar, como na música Balada por Un Loco, magistralmente interpretada por Amelita Baltar com o acompanhamento daquele tocadorzinho de bandoneón, vulgo Astor Piazzolla, amante dela, por sinal, lembra?

vivi
  Astor Piazzolla e Amelita Baltar
   
Tenho feito isso no site do Lima Coelho, de forma contagoteada (gostou?). Por ser um site de literatura pura, caibo certinho no espaço. Nada me impede, porém, de depois ajuntar esse material, sistematizar direitinho e publicar outro livro. Tenho entremeado coisas velhas (do livro) e coisas novas que brotam aos borbotões. Como podes ver, quando falo aos borbotões, devo acrescentar, de forma quase insana, já que respiro o Acre e seus fantasminhas, inclusive os de moral duvidosa.
Prestenção: mandei o texto da amiga Robélia Fernandes, a mãe do menino reitor, e o Mestre Lima Coelho publicou hoje. Está dando o que falar. Veja lá e faça-me um favorzão de entrar em contato com a mesma para dizer-lhe de minha ousadia. Ligando para tua querida Edinir ou para o próprio Jonas, encontrarás a gata premiada. Não sei se você é sabedor (homem apaixonado fica lezão!!!!), Robélia ganhou o prêmio de Literatura Do Banco Real - Talentos da Maturidade -, no ano que passou.
Outra novidade que quero contar nesta missiva respostiva é que, a crônica sobre o Cine Biriba, o meu cinema inesquecível, ganhou do poeta Lima Coelho uma série de lembranças sobre cinema. Veja lá! Acrescente o site ao seu rol de preferidos, quer seja favoritos. A série é O ESTRONDO DO PAPOCO. Tem depoimentos lindos e saudosistas. As pessoas levantaram a raiva de cinema virar igreja de crentes. Os crentes não têm nada a ver com isso. O poder econômico, sim!
   
Fotos: Marcus Vicentti.   

 
         vi   vi  
No bairro Papoco: crianças indo para a escola e a rua onde ficava o Cine Biriba. 
   

Meu amigo, aqui nessa Bahia, ó quão dessemelhante, não consegui localizar esse tal de Sagan, nem o tal de Arthur Eddington, ou Edinho, como preferir. Acho que eles moram lá pros lados de Itabuna.
Voltando a falar sério:
Hoje faz um ano exato que lancei Suindara. Hoje faz nove meses exatos que perdi minha velhinha, a santa quebrada que eu adorava colar os caquinhos. Tô numa orfandade do caralho! E essa fotografia de quatro gerações matou a velha! Matou, mas ao mesmo tempo, me encheu de inveja de mim mesma (pode?). Os motivos para sorrir não cessaram nem cessarão, enquanto puder ver e ouvir das crianças os sorrisos.

   
vi   vi

Na goiabeira de goiabas brancas, os melros fazem rendez-vous, enquanto Leila escreve…

   

Partindo pros finalmentes e antes do abraço final, quero dizer: minha casa tem quintal, tem horta, tem varal, tem pé de laranjeira onde um sabiá albino vem cantar. A goiabeira de goiabas brancas, (im)pilhadas de tapurus, é o rendez-vous dos melros. Minha casa tem um quarto pra você e sua doce Patrycia, sempre que desejarem, descansar o corpo para depois discutir que o longe é um lugar que não existe. Certo?
Estou feliz, enquanto permitido. E amo por amar, que é liberdade. O poema do Boca do Inferno foi uma benção! Quá, quá, ra, cá, cá , quem riu, quá, quá, rá, cá, cá, fui eu!!!! Inda sou mais eu!

 Um beijo grande.

 Leila.


Beijos meus e da Patrycia.

  PS: o site do escritor Lima Coelho (excelente por sinal) é este, basta escrever o nome Leila Jalul e lá estarão suas crônicas e comentários:

www.limacoelho.jor.br


 

CARTA-DESAFIO PARA LEILA JALUL…

Postado em 26 Julho, 2008
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Querida Leila!

  Mês que vem faz um ano que lançaste teu livro “Suindara” na Tentamen.

Não fui ao lançamento. Te encontrei depois quando a Walquíria Raiser lançou o dela, lembra?

Aproveito a magna data para estender neste Varal de Idéias o meu movimento cívico-epopéico para que tu comeces a escrever um romance. Já sinto que vai ser coisa muito boa e prazerosa essa campanha, tipo promessa: pedido feito, santo preparado!

Outro dia, comecei a ler a autobiografia “Viver para Contá-la”, do Gabriel García Márquez. Quando li que a surrealista Macondo (do “Cem Anos de Solidão”) surgiu graças a um nome pintado na porteira de uma fazenda abandonada, fiquei surpreso com o detalhe, sabendo que a partir dele, o nosso colombiano maravilhoso nos ofereceu uma das maiores aventuras da imaginação humana.

Então, pensei: “nós já temos uma Macondo vivinha em flor, real, com explosões infinitesimais acontecendo desde os tempos  d’antanhos, s mil universos paralelos, com  os tempos esquecido que estendemersos paralelos, com criando trezentos mil universos paralelos por segundo (velocidade da luz, minha amiga!), um lugar onde todos os adjetivos da última flor do Lácio são insuficientes para desbravá-lo… Qual? Quem?… Ora, nossa Rio Branco!

Há lugar mais apropriado para uma saga?

A questão é: quem poderia escrevê-la?

um ano, Leila Jalul lançou seu livro “Suindara”,

na Tentamen. Esta foto foi tirada pela filha do Elson Martins,

a pequena Yasmin.

   Aprendi, lendo Carl Sagan, que não se deve confundir “autoridade de argumento com argumento de autoridade”.

Em primeiro e alegríssimo lugar, descarto-me sorridente e faceiro de me meter nessa enrascada. Por motivo bem simples: magreza de talento. Sei que sou bom para dar aulas, para falar honestamente sobre sonhos (e senti-los), emocionar pessoas, em contribuir para que a esperança, a valorização humana et cetera estejam na direção do preservar e do promover a vida, meu princípio ético sustentabilista inegociável.

Em segundo lugar: está faltando um Gabo de saias no Acre.

Então, sobrou pra ti.

Poderia ser o Toinho, a Bruxinha, Dandão, Florentina, Sílvio (o Martinello e o Margarido), Elson, Gregório, Clodomir, Naylor, Robélia, Mauro e tantas gentes muito boas? Penso que cada um desses tem as suas maravilhas.

O passado, o presente e o futuro na família…

  Mas a sintonia fina, aquela coisa de azeite, a cachoeira palavrosa, a inquietação nervosa e ferina, a poética da sensibilidade, a crepitação surrealista, e o amor terral e atmosférico por essas paragens, tu vai alimentando por aí.

Sim, sei que estou apelando.

Mas não é de graça, tem um preço. Afinal, o trabalho será teu… rsrsrsrs… (é irritante o internês: ninguém se preocupa mais em seduzir para o sorriso, basta colocar os indefectíveis hehehehe…kkkkkkkk….).

Começo com um esforço mental eisteniano-relativístico-quântico-gastronômico, cuja base teórica se inspira em Sir Arthur Eddington : “quando um elétron vibra, o Universo se agita”. Prestenção!

 Na Bahia, onde armou tenda, Leila deve estar se encontrando com Gregório de Matos

Você está na “triste Bahia! oh quão dessemelhante”.

Não sei se tua casa tem terreiro (fico imagino tua peleja com o Gregório de Matos e Guerra, com ponta de sabre e bala de metralhadora!). Se tiver, arruma um lugar para montar um canteirinho (que possa ser visto do jirau, para pastorar). Planta umas verduras, faz amizade com o açougueiro para as boas peças de carne (que comida árabe é exigente) e instala um pote de barro de água fria coada no murim. Depois, sai juntando as energias do Caetano, Gil e João Gilberto (e claro, o Ubaldo Ribeiro e também Glauber) e vai fazendo um caldo em fogo brando. Trata e limpa as memórias falsas e verdadeiras para botar de molho. Se sinta a maior Sóror Joana Angélica, ponha o computador pra não pegar sol, prepare um café sem coador e comece a esboçar o romance… Que tal?

E onde entra o Sir Arthur Eddington?

É que estando na Bahia de Todos os Santos tu tem o distanciamento devido e, paradoxalmente, as lembranças, as inspirações, o insight (globalização, globalização!) podem vibrar mais.

E, enquanto o pernil vai cozinhando, bota no som Viola Enluarada que é pra lembrar dos amigos e saber que “a voz que canta uma canção se for preciso canta um hino”.

Cante para nós, Leila!

 

Beijos do amigo,

 

Marcos Afonso.

 

 

NOTA: As opiniões sobre o Movimento Cívico-Epopéico Gabo de Saias podem ser encaminhadas via internet comentando diretamente no

www.varaldeideias.com

UMA BOCA, DOIS OLHOS, DOIS OUVIDOS…

Postado em 20 Julho, 2008
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            A Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura – Unesco, definiu quatro pilares da educação para este terceiro milênio.

            Servem para todos. São aprendizados. E a utilização do verbo já é uma provocação àqueles que se petrificam em conceitos, acumulam apostasias, ou se deliciam no confortável leito do dogmatismo e seu macio travesseiro conservador.
            Os quatro pilares da Unesco nos convidam a uma revisão permanente sobre o que entendemos por acúmulo de conhecimento. Unificam práxis com experimentalismo teórico, estabelecem uma sinergia de cada um com o todo e todos.
 
            O primeiro: “Aprender a Conhecer”.
            Ter consciência da necessidade de aprender a aprender, de admirar-se com o novo, buscar o desconhecido, sair da acomodação, reconhecer que todo conhecimento, mesmo o adquirido mais recente, tem seus condicionamentos e limitações. Abrir nossa mente para aprender sempre é um exercício um tanto difícil, mas possível, desde que saibamos colocar aquela pitada de humildade necessária.
 
            O segundo: “Aprender a Fazer”.
            Aqui, compreendido como a antítese do diletantismo, da escravidão da retórica, da embromação do discurso. Longe de ser um elogio ao pragmatismo desalmado, o “aprender a fazer” significa aplicar a capacidade de resposta frente ao desafio apresentado. É o mover dinâmico da vida, o berçário das experiências sociais e de trabalho. Fazer para ver e sentir a eficiência e a eficácia.
 
            O terceiro: “Aprender a Conviver”.
            Estimular a descoberta progressiva do outro, libertar-se da visão antropocêntrica do homem como centro do mundo, do “eu” como medidor egocêntrico da realidade. Sem perder a individualidade (não confundir com individualismo), devemos ser e estar numa relação interdependente com o todo. O desligamento dessa teia é que faz o tão nocivo desencanto, insensibilidade, pouca reverência às maravilhas da natureza, manifestações da crise ética que se abate sobre nós nesses tempos modernos. Participar, produzir saber, associar-se a sentimentos e pensamentos. Conviver é potencializar a natureza, a qualidade e os traços comuns.
 
            O quarto: “Aprender a Ser”.
            A busca pelo desenvolvimento pleno da pessoa humana. O estímulo à criação de pensamentos autônomos e críticos, à formulação de próprios juízos de valor, resultantes da valorização do espírito e corpo, inteligência, sensibilidade, sentido estético, responsabilidade pessoal, capacidade de se comunicar e espiritualidade.
 
            Esses são os quatro pilares.
            Como na canção de Kátia de França, aqui estão “quatro jogadores sobre a mesa dando as cartas do jogo surdo da vida”.
            Um grande desafio.
            Não somente para professores e educadores. Mas para políticos, economistas, técnicos de todas as áreas, mães e pais, filósofos e sonhadores: aprender a conhecer, fazer, conviver e ser.
Aparentemente coisa sem importância. Mas, dado o que temos visto no mundo de hoje podemos dizer, ao menos, que para boa parte das nossas ações demos a direção errada, ou tivemos sonhos equivocados (ou por acaso você é daqueles que acha que todo sonho é válido?).
            Os quatro pilares da educação da Unesco mostram que precisamos buscar um equilíbrio entre nosso empenho político-cultural e nosso espírito analítico. Parafraseando o filósofo italiano Norberto Bobbio, precisamos repor a política, a cultura, as relações sociais, como um universo de paixão, contrastes e contradições. Isso fere todo esquematismo, a comodidade, o cartesianismo exagerado e definitivo. Necessitamos da diversidade sendo colocada elegantemente na unidade da vida, da práxis social e coletiva, no enriquecimento da condição humana.
            Muito enfadonho?
           Então veja as seguintes situações ou escolhas que tomamos (por vezes até inconscientes da gravidade), durante nossas vidas.     
Você prefere brigar ou lutar? Quem briga, prende-se na superfície e nas aparências do conflito apresentado. É o forçar, o aborrecer, a negação do diálogo. Quem luta, muda conteúdo, aprofunda conceitos, valoriza e admira a qualidade do oponente (que pode ser uma idéia, uma direção proposta, uma propriedade nova ou diferente). Soma-se na luta.
            Você prefere ouvir ou escutar? Quem ouve, geralmente exerce o sentido físico da audição e se satisfaz com isso. É possível, e até mais cômodo, ouvir uma contradição com desdém, intolerância e hipocrisia. Comumente, sem a humildade devida, ouvimos com falsa atenção uma idéia que se apresenta superior à nossa. Quem escuta, dá importância, aprende com o diferente, toma consciência do que se apresenta, potencializa a dialogia, procura pontos em comum naquilo que é aparentemente incompatível. Quem ouve, diminui. Quem escuta, amplia.
            Você prefere tolerar ou respeitar? O sofrimento, o aturar e o suportar estão na base do tolerar. É certo que em alguns casos a tolerância é necessária, tendo em vista uma idéia muito primária ou inicial. Mas, tolerar por tolerar é a negação da gratidão. É lidar com o antagonismo da forma mais cruel: a suprema indiferença. Quem respeita, leva sempre em consideração a integridade do diferente, procura ser prudente, cuida bem da assimilação de uma nova idéia, sabe colher e doar com dignidade, aprende a olhar para as experiências passadas e remete ao futuro propostas mais refinadas.
            Por fim, você prefere falar ou conversar? Aprendi nestes tempos que professar é simples; educar, mais complexo. Quem só fala faz prevalecer sua irredutibilidade, conta de si, delicia-se com o jorrar de seus fonemas. Aqui está uma das características do pseudo-líder em quaisquer áreas, do superficial, da manifestação individualista e arrogante externada sempre de forma autoritária (muitas vezes, sem autoridade). Já quem conversa, escuta, sonda o pensamento do outro, busca intimidade, compara e mistura idéias para novas práticas e conceituações. Quem conversa, segue um princípio que aprendi com um velho sábio acreano, seu Manoel Araújo: “Deus nos deu dois olhos, duas narinas, dois ouvidos, e uma boca”. Quem conversa, diminui erros, divide experiência, soma conhecimento e multiplica acertos.
 
            Quatro aprendizados.
            Quatro atitudes.
            Quatro letras da palavra vida.           

 

SEIS LIVROS ENCANTADORES…

Postado em 13 Julho, 2008
Categoria Notícias | 18 Comments

 
         Esta é a sua ilha.
 
         Nela, você vai se libertar do bombardeio diário de milhões de informações da internet, jornais, TVs e revistas. E, durante um bom tempo, você lerá livros.
         Que livros você levaria para lá?
         Se você quer aprofundar seus valores éticos, buscar compreender o tempo e o espaço contemporâneos, além de um novo reposicionamento histórico, e pedisse minha sugestão, te indicaria alguns livros agradáveis de serem lidos, mas com densidade suficiente para que você pudesse formar uma base mínima para alçar seu próprio vôo.
 
         O que faz um bom livro?
         Em sua obra magistral (Teoria Geral da Política), o filósofo italiano Norberto Bobbio (1909 – 2004) considera clássico “um autor que ao mesmo tempo é intérprete autêntico do seu próprio tempo, sempre atual, de modo que cada época, ou mesmo cada geração, sinta a necessidade de relê-lo e, relendo-o, de reinterpretá-lo. E que tenha construído teorias-modelo das quais nos servimos continuamente para compreender a realidade”.
         Nessa direção (e sem nenhuma arrogância de apresentar uma lista fechada) sugiro que você leve à sua ilha, alguns livros atuais.
   
 
O MUNDO DE SOFIA, Jostein Gaarder.
 
  
 
         Neste livro, uma garota de 15 anos, Sofia, viaja pela história do pensamento humano numa experiência singular. Penso que nem Jostein Gaarder, norueguês e professor secundarista de Filosofia, imaginava o tamanho do sucesso que “O Mundo de Sofia”, Cia. das Letras, alcançou: um dos mais lidos no final do século passado. Ele te dá uma base mínima para compreender processos, dilemas, conquistas e vitórias do nosso pensamento nos últimos 2.500 anos. Fundamental para se ter uma visão geral da Filosofia, dos gregos antigos à Física Quântica moderna. É um romance. E o seu final, um dos mais surpreendentes de todos os livros que já li.                                                                                                
   
 
ERA DOS EXTREMOS, Eric Hobsbawm.
 
 
 
         Em “Era dos Extremos – O breve século XX (1914 – 1991)”, Cia. das Letras, Eric Hobsbawm, um dos maiores pensadores contemporâneos, marxista, te proporciona uma visão clara sobre o último século: sua densidade, revoluções, enormidades condensadas num curto período histórico, mas fundamentais para que chegássemos onde estamos. Bem escrito, com um estilo elegante, crítico e vigoroso, este livro de Eric Hobsbawm te dá uma visão totalizante sobre nossa história recente. É uma análise profunda e um alerta desafiador. “Se a humanidade quer ter um futuro reconhecível, não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio nessa base, vamos fracassar. E o preço do fracasso, ou seja, a alternativa para uma mudança da sociedade, é a escuridão”.
 
  
O MUNDO ASSOMBRADO PELOS DEMÔNIOS, Carl Sagan.
 
 
 
         O astrônomo Carl Sagan (1934 – 1996), sem dúvida, foi o maior divulgador da ciência no século passado. Seu seriado na TV, “Cosmos”, foi visto por bilhões de pessoas. Além de um escritor maravilhoso, Carl Sagan era um ateu apaixonante, vibrante, um exemplo de cidadão do mundo. Sem medo do experimentalismo teórico, e com forte base na ciência, “O Mundo Assombrado Pelos Demônios”, Cia das Letras, é fundamental, imprescindível, para se ter uma coerente visão do mundo e da condição humana, longe dos estereótipos, do fanatismo, misticismo vulgar e, principalmente, dos fundamentalismos religiosos tão presentes nos dias atuais. “Se nos recusamos radicalmente a reconhecer em que pontos somos propensos a cair em erro, podemos ter quase certeza de que o erro – mesmo o engano sério, os erros mais profundos – nos acompanhará para sempre. Mas, se somos capazes de uma pequena auto-avaliação corajosa, quaisquer que sejam as reflexões tristes que possa provocar, as nossas chances melhoram muito”.
 

A TRILOGIA DE LEONARDO BOFF
 
 
            O catarinense Leonardo Boff é, para mim, o maior filósofo brasileiro da atualidade.
Boff ingressou na Ordem dos Frades Menores, franciscanos, em 1959 e doutorou-se em Teologia e Filosofia pela Universidade de Munique em 1970. Deu aulas nas universidades de Lisboa (Portugal), Salamanca (Espanha), Harvard (EUA), Basel (Suíça) e Heidelberg (Alemanha). É doutor honoris causa em Política pela universidade de Turim (Itália) e em Teologia pela universidade de Lund (Suécia). Em 8 de Dezembro de 2001 foi agraciado com o prêmio nobel alternativo em Estocolmo (Right Livelihood Award), por causa de sua luta e obra em favor dos fracos, dos oprimidos e marginalizados e dos Direitos Humanos.
Em 1985, foi condenado pelo Vaticano a um ano de "silêncio obsequioso" e deposto de todas as suas funções editoriais e de magistério no campo religioso. Dada a pressão mundial sobre o Vaticano, a pena foi suspensa em 1986.
 
Marina Silva ao lado de Leonardo Boff, conferencistas da esperança…
 
Em 1992, sendo de novo ameaçado com uma segunda punição pelas autoridades de Roma, renunciou às suas atividades de padre e se auto-promoveu ao estado leigo. "Mudo de trincheira para continuar a mesma luta": continua como teólogo da libertação, escritor, professor e conferencista nos mais diferentes auditórios do Brasil e do estrangeiro, assessor de movimentos sociais de cunho popular libertador, como o Movimento dos Sem Terra e as comunidades eclesiais de base (CEB’s), entre outros.
Atualmente vive no Jardim Araras, região campestre ecológica do município de Petrópolis-RJ e compartilha vida e sonhos com a educadora Marcia Maria.
É autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística. A maioria de sua obra está traduzida nos principais idiomas modernos.
 
Esta é a trilogia de Leonardo Boff que sugiro (publicada pela Editora Vozes):
 
I.                    A Águia e a Galinha – Uma metáfora da condição humana”;
II.                  O Despertar da Águia – O dia-bólico e o sim-bólico na construção da realidade”;
III.                Saber Cuidar – Ética do humano – compaixão pela terra”.
 
A sua ilha existe. Ela está na sua imaginação.
E os livros estão ali, na sua livraria preferida.
Bons vôos!
 
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NOTA: Dedico este Varal de Idéias para minha querida professora de Literatura, Edinir, que nas tardes de 1978 conseguiu incendiar minha mente com o fogo da paixão e do amor pelos livros.
                                            
 
 

 

A FLORESTA QUE ABRAÇA…

Postado em 5 Julho, 2008
Categoria Artigos | 18 Comments

A Sociedade Philosophia caminha nos varadouros da floresta e da tradição…

 
            Fabrícia completou sua 18a. volta ao redor do Sol debaixo da grande castanheira e de um céu maravilhosamente estrelado, enquanto a música da sanfona entrava em ondas pela floresta e as lamparinas estendidas no terreiro lançavam luzes alegres na densa folhagem.
            Ao redor dela estavam os amigos ashaninka, yawanawá e kaxinawá, além de seringueiros e parentes de Chico Mendes. Antes, ela já tinha visto, no telescópio, a Lua e o planeta Júpiter.    
            Fabrícia, que é estudante de Ciências Sociais e atriz, ganhou de presente um livro (“Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez). Seus olhos brilhavam e seu sorriso ia de janeiro a janeiro, embora fosse 27 de junho e também a primeira noite que a Sociedade Philosophia passava no Seringal Cachoeira, Xapuri, em sua “imersão” no nosso tempo e espaço originais.
            A Sociedade Philosophia iniciava seu diálogo com a Tradição e a Modernidade, com um respeito emocionado, uma alegria de reencontro, onde cultura, ciência e sabedoria se entrelaçavam numa dança mágica.
            Esse foi apenas um dos momentos de intensa emoção que sentimos no Seringal Cachoeira, impossíveis de descrever nesse espaço.
 
   
O ashaninka Piãko observa Júpiter no telescópio e André medita na floresta…
 
            Foram três dias preciosos, com sínteses profundas.
            Não haveria lugar melhor para que funcionários públicos, professores, universitários e estudantes vivenciassem parte do nosso universo étnico e florestânico, da nossa história milenar e contemporânea, de mover sentimento e razão num diálogo de intensa magnitude.
 
  
Caminhando na floresta, o enfermeiro João bebeu água na fonte de sua identidade.                                              
  
            Os 40 membros da Sociedade Philosophia fizeram trilhas por mais de doze horas nos varadouros da floresta, conhecendo suas riquezas, seus aromas e mistérios. Vivenciaram o espírito dos seus povos, comeram à mesa de seus trabalhadores, andaram sob as estrelas e observaram galáxias e captaram o vento nas noites escuras fazendo coro com a vida que a floresta guarda e cuida.
 
 
O primeiro Diálogo da Florestania: “Ashaninka, Seu Tempo, Seu Espaço”
 
            Realizamos três “Diálogos da Florestania”. Neles, sentimos (na acepção mais vigorosa do termo) os valores profundos de nossa ancestralidade, onde o choque do “ter” antropocêntrico desmoronava-se com o “ser” totalizante dos Ashaninka, conhecemos a simplicidade generosa dos seringueiros que fizeram história e que ainda hoje precisam travar o bom combate, pudemos apalpar a vida transpirando em cada átomo, muitas vezes entorpecido pela nossa veloz e pragmática modernidade.
 
  
Jaime Tyryetê (primeiro presidente do Conselho Nacional dos Seringueiros), Duda e Tião Mendes (primos de Chico Mendes) e Monteiro (presidente da Associação dos Seringueiros do Seringal Cachoeira), durante o “Diálogo Tradição e Modernidade”.
 
            Essa foi a maior experiência filosófica que já vivi: junção de práxis com sentimento, de interação com a enormidade do universo, de encantamento com a delicadeza do detalhe, de compreender o silêncio e o momento certo das palavras, de saber escutar (em vez de ouvir), de lutar (em vez de brigar), de reencontrar nossa identidade e valorizar a necessidade do correto posicionamento histórico, de assegurar o princípio ético e sustentabilista de preservar e promover a vida, já que viemos do mesmo instante e que somos feitos da mesma substância dos sonhos e das estrelas.
 
  
Marlene prepara o “quebra jejum” na sua Colocação e Dona Cecília
(tia do Chico Mendes) falando: a força preciosa e destemida das mulheres da floresta.                                                     
 
            Sabemos que, quando um elétron vibra, o Universo todo se agita.
            Posso dizer que naqueles três dias, contribuímos para que o Universo dançasse a linda valsa de nossas vidas. 
 
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 Dedico este Varal de Idéias ao nosso querido amigo Zé Alexandre, que partiu nesta quinta-feira (3 de julho). Ele era o nosso guerrilheiro das sensíveis liberdades… Continuará sendo em nossos corações…
 
 
  
 
 
 
AGRADECIMENTOS:
 
A Imersão ao Seringal Cachoeira (de 27 a 29 de junho) não seria possível sem o apoio direto das seguintes pessoas e instituições: Binho Marques, governador do Acre; Edegard de Deus, Elzira, Iara, Elson Martins, Fátima Silva e Albuquerque (Biblioteca da Floresta Marina Silva); Cassiano Marques (Sec. Turismo); Thor Maia e João (Sec. Saúde); Irailton Oliveira (Inst. Dom Moacyr); Jorge Henrique (TV Aldeia); Itaan Arruda e Jussara (Assessoria de Comunicação); Alberto (motorista do ônibus); Célis Fabrícia (jornalista), Beto Oliveira (cinegrafista) e Ângela Peres (fotógrafa); Francisco Carlos (Clube de Astronomia Gama Hidra do Acre); Francisco Piãko (Sec. Assuntos Indígenas) e sua família (Eliane e Tanaka); Dona Cecília, Jaime Tyryetê Kaxinawá, Duda e Tião Mendes, Monteiro (Associação dos Seringueiros do Seringal Cachoeira); “Música da Floresta” (grupo de forró); Leno, Mônica, funcionários e cozinheiras da Pousada do Cachoeira; ao Wesley, Leandro, Fabrícia, Maíra, Bárbara e Maria do Socorro (Moderadores de Apoio), à querida Patrycia e ao dedicado Mateus, e à toda Sociedade Philosophia.
           
           
* Todas as fotos são de autoria de Ângela Peres             

 

UMA SEMANA VITORIOSA!

Postado em 29 Junho, 2008
Categoria Artigos | 16 Comments

 

     São 5 horas da manhã.
 
     Levanto-me, tomo um chá quente, abro o escritório e vou ver se os jornais chegaram.
     Quando chego à varanda, vejo o céu estrelado e a Lua em quarto minguante.
     No jardim, varando os galhos do grande pé de vica, observo Vênus no oeste, tranqüilo, como dizendo que tudo está normal.
     Fico contente com a ausência das nuvens baixas da friagem. Isso vai possibilitar uma boa observação astronômica nas duas noites que passaremos no Seringal Cachoeira com a Sociedade Philosophia.
     Leio rapidamente as manchetes dos jornais e fico rindo comigo mesmo, lembrando-me que na segunda-feira, quando começou o novo fuso, eu é que botei a mão na massa, fiz o café e pus a mesa, porque a secretária ainda estava no Acre de sempre e chegou pelas sete, ou seis, ou sei lá…
 
     Faltam dez para as seis.
 
 
Da mesa do escritório, olho por entre as folhas da caramboleira e vejo que o Sol ainda deve estar se espreguiçando, e que a Terra não deu o giro certo para receber as luzes de sua estrela.
     Saio novamente para cubar o escuro. Faz muito tempo que não vejo Antares, o coração do Escorpião, que aparece antes da alvorada. Não consigo encontrá-la. Acho que as palhas do coqueirinho do vizinho a encobrem. E faz tempo também que não vejo o dia amanhecer.
     Desisto, porque tenho este Varal para escrever.
 
     São seis horas da manhã.
 
     Sete luzes brancas acesas na casa.
     Vou ter de apagá-las talvez daqui a meia hora.
     Preciso acender outras luzes na cabeça.
     Preciso escrever que, mesmo com o tempo confuso (e vale o trocadilho), esta foi uma semana vitoriosa!
 
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     Você vê o mundo a depender de onde pisa.
     E há quase um ano armei a minha tenda na Biblioteca da Floresta Marina Silva. Nela, “tenho ouvido muitos discos, conversado com pessoas, caminhando meu caminho” como canta o rapaz latino-americano de Belchior.
     A Biblioteca tem uma equipe muito boa, que sabe respirar a sua essência de dialogar tradição e modernidade.
     O ambiente de livros, exposição, filmes, computadores, memória, debates, cultura e ciência, fizeram com que (além de outras coisas) eu voltasse a dar palestras com todo o gás.
     Contabilizei outro dia, só para efeito de registro, que neste ano dei palestras para mais de mil pessoas.
     Gentes de todos os tipos, lugares, idades e profissões.
     E, sem falsa modéstia, penso que a grande maioria gostou.
 
     São palestras de auto-ajuda, dessas que você paga uns bons 200 reais para ouvir algumas obviedades? Ou partidariamente ideologizadas?
     São palestras de cumprir tabela, dessas que os professores dão faltas se você der uma gazetada? Ou daquelas que você participa por conta do cargo comissionado que possui?
     Não.
     Então, por que dão certo?
     Dão certo porque simplesmente elas falam do combustível que impulsiona a máquina da vida: os sonhos.
 
 
     E, parece paradoxal, aderi à revolução técnico-científica. Me sofistiquei. Internetizei-me de vez. E o Altino Machado quer me dar umas aulas de blog.
     Ainda não sei bem, mas com a ajuda do Rodrigo, Denison, Wesley e Leandro (todos da Biblioteca) vou montando aqui e ali um PowerPoint, garimpo meio sem jeito músicas no Youtube, vasculho fotos no Google, ligo data show e nivelo razoavelmente uma mesa de som. Tudo muito moderno para uma boa apresentação.
   
     Pois bem. Depois de tantas palestras, veio o desafio maior: fazer uma Oficina pública de três dias, voltada para Deus e o mundo que se interessasse, no auditório da Biblioteca. Tremi nas bases.
     Essa idéia de Oficina, como já escrevi aqui no Varal, veio do Binho em 2005. De lá para cá fiz três, mas para públicos dirigidos, preparados, essas coisas.
     Agora fazer uma Oficina pública, anunciada na imprensa, com ficha de inscrição e certificado, era outra coisa.
 
     Primeiro desespero: daria gente?
     Segundo: haveria pessoas que se dispusessem a passar cinco horas discutindo… Filosofia?
     Quatro dias antes cheguei para a Fátima Silva, que coordena os eventos, e perguntei se havia alguém inscrito. Já tinha mais de 40. Me contive prudentemente. Mas já fiquei contente.
     Na terça-feira (24 de junho, São João), primeiro dia da Oficina, me preparei psicologicamente: “se vierem umas quinze pessoas já é muito bom”. As 17h30 desço para o auditório. Pergunto para alguém se tem gente. “Sim, algumas chegaram”.
     Quando fui me dirigindo ao palco a emoção foi me pegando.
     Não acreditei quando vi mais de 70 pessoas sentadas!
 
 
     Advogadas, engenheiros, psicólogas, funcionários da Justiça, servidores do Estado, professores, filósofos, secretários do município, poetas, estudantes de direito, informática, geografia, jornalismo, administração, letras, pedagogia, alguns membros da Sociedade Philosophia e um grupo de alunos da Escola da Floresta, situada a mais de 20 quilômetros da cidade, que trazia também pessoas de Xapuri, Sena e Brasiléia.
 
 
     Várias vezes a Biblioteca encheu seu auditório.
     Mas, para mim, aquela era a lotação mais linda.
 
     Foram três encontros indescritíveis. Momentos de sensibilização à Filosofia, aos nossos sonhos, à valorização da nossa condição humana e da nossa interligação com todos os seres, de comunhão com o mundo, o espaço e o tempo.
     Sei que é muito pouco tempo.
     Mas é bom saber que no Acre, durante três dias, pessoas se reuniram para dar mais sentido a tantas transformações que estamos operando e ainda temos de realizar. 
      Quando, neste domingo, você estiver lendo este Varal de Idéias, saiba que eu me encontro no meio da floresta, no Seringal Cachoeira, em Xapuri, ao lado de 40 membros da Sociedade Philosophia, fazendo uma imersão no nosso tempo e espaço originais.
 
     Me diga: mesmo com o tempo confuso, não foi uma semana vitoriosa?

VOCÊ JÁ PULOU MACACA?

Postado em 22 Junho, 2008
Categoria Artigos | 8 Comments

 
NOTA (MARCOS AFONSO): Mais um texto saboroso da Patrycia Coelho, minha mulher, com suas memórias gastronômicas. A partir de julho, Patrycia, escreverá uma coluna semanal sobre o tema para o blog do Site da Biblioteca da Floresta. Aguardem!
 
TEXTO DA PATRYCIA COELHO:
 
Fim de noite na praça, pleno domingo: casais de namorados, famílias passando, os “cuidadores de carro” encerrando o expediente e na frente do Coreto, duas crianças entre cinco e oito anos pacientemente riscando o chão. Meu marido não agüentou: “Vou lá ver se elas estão brincando de macaca”, ou amarelinha, como é conhecida em alguns lugares. As meninas olharam meio de banda, mas em segundos estavam orgulhosamente pulando pra ele ver.
 
Isso imediatamente me transportou de volta há muitos anos atrás, onde eu e um grupo de meninos e meninas, giz em punho, procurávamos um chão de cimento na ausência de asfalto e íamos construindo nossa brincadeira. Saudosismos a parte, o baleado, bandeirinha, manja e pêra,uva,maçã parece que embarcaram em uma canoa furada e desceram o fundo do rio para de lá tão cedo não sair. Molecotes de antigamente, vivíamos suados e esbaforidos de tanto correr. Como única mulher entre quatro irmãos, tornei-me especialista em jogar “pelada”, soltar papagaio, brincar de peteca e comer manga no pé.
 
Nas horas vagas, ainda tínhamos energia para pular o quintal alheio atrás de “pepeta” ou fruta madura. Marilana, cajá, manga, goiaba, cana, ingá, a lista de petiscos não tinha fim. Nosso calendário de frutas era perfeito, acabava uma, começava a outra. Até hoje tenho dificuldade em comprar manga e graviola no supermercado, acho estranho: a fartura do quintal era tanta que dávamos graças a Deus quando alguém aceitava um pouco do excedente, já sem lugar para guardar, em casa ou na barriga.
 
Os franceses são especialistas em fazer suas refeições com os produtos da estação, os mais frescos que eles podem encontrar. Mireille Guiliano, CEO (Chief Executive Officer) da Veuve Clicquot, empresa famosa pela qualidade de seus champanhes, escreveu um livro delicioso e muito fácil de ler, chamado “As Mulheres Francesas Não Engordam”. O livro virou um best-seller por falar entre outras coisas das diferenças entre americanas e francesas ao se alimentarem: enquanto as americanas se empanturram com porções quilométricas de comida, quase sempre na frente da televisão, as francesas escolhem os produtos da época, fazem sua própria comida e consomem porções menores.
 
 
 
Não há nada mais perfumado que uma fruta no auge da estação nem sabor mais delicado que o de um legume ou verdura recém-colhidos. Os produtos expostos nos supermercados, embalados em bandejinhas prontas para o consumo, quase sempre foram retirados ainda verdes, o que implica em menos sabor. Experimente cheirar uma manga de supermercado e compare com aquela que tem no quintal de casa e você saberá do que estou falando.
 
Lembro de um vizinho de minha mãe, cuja criatividade e capricho fizeram-no construir uma casa de bonecas para seus inúmeros cachorros, que em tempo de goiaba alimentava os bichinhos entre outras coisas, com latas e latas de querosene cheias da fruta madura, recolhida do chão de nosso quintal. Aquele cheiro inebriante ainda me acompanha, chão vermelho de goiaba pisada.
 
 
Tinha a época da laranja, esta vinda de fora, em grandes caminhões, comprada no cento. Um dos meus lanches preferidos era exatamente laranjada (quem lembra?), que é o suco de laranja batido com água e açúcar, única forma de aumentar a quantidade e encher a barriga da meninada, acompanhado de pão sem manteiga e sem miolo. Enjoei de manteiga depois que besuntei um pão por dentro e por fora, tamanho o amor que eu tinha pela iguaria. Por conta disso passei muito tempo sendo light sem saber, pois não conseguia nem olhar pra manteiga.
 
Neste mês de santo Antonio, como não lembrar dos folguedos dessa época?Ainda não era errado fazer uma bela fogueira, metros e metros acima do chão: as famílias da minha rua tinham todas à frente de suas casas fogueiras grandes ou pequenas, dependendo da coragem do arrumador. Fazíamos adivinhações com pingos de vela em pratos com água, para saber a inicial do futuro consorte e coitadas das bananeiras, levavam algumas facadas com o mesmo fim. Era chegada a hora de arrumar compadres e comadres de fogueira e tínhamos tantos afilhados quantos fossem os meninos da rua.
 
 
Mas o bom mesmo era pular aquelas brasas, naquele friozinho característico das noites de junho de antig