Arquivado em abril, 2008
CHEGUEM ATÉ A BORDA…
Publicado em 27 / abr / 2008.

“Era uma vez quatro indivíduos chamados: Todo Mundo, Alguém, Ninguém e Qualquer Um.
Quando havia um trabalho importante para ser feito, Todo Mundo estava certo de que Alguém faria.
Qualquer Um poderia ter feito, mas Ninguém fez.
Quando Ninguém fez, Alguém ficou nervoso porque isso era obrigação de Todo Mundo.
No final, Todo Mundo culpou Alguém quando Ninguém fez o que Qualquer Um poderia ter feito.”
É com essa história bem bolada que estou iniciando as minhas palestras sobre o Tempo e o Espaço.
Estou convencido de que a essência da crise epistemológica em que estamos envolvidos está na incompreensão do Como e do Onde.
Hoje tudo é muito rápido e excessivamente curto. Estamos pensando pouco e vendo precariamente.
Isto nos coloca, por vezes, numa sensação de impotência.
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Nesta crise, basicamente, quatro comportamentos se sobressaem: o daqueles que ignoram a crise e a necessidade de mudar; dos que vêem a necessidade de mudança mas preferem manter as coisas como estão; dos que aceitam mudar mas não sabem como; e dos que lutam para acreditar que o presente é o futuro que se realiza, e tentam transformar a realidade.
E os resultados são conhecidos. Os que ignoram, são atropelados; os indiferentes acostumam-se com o passado; os ineficazes, não apresentam perspectivas; e os que procuram mudanças encontram dificuldades para ver o futuro como o horizonte das possibilidades.
Sim, sim. Evidente que estamos embutidos neste mundo globalitário, excludente e individualista, de monoculturas e fundamentalismos.
Mas somos, cada um, a multiplicação que forma a teia social, que dá vazão às mudanças. Somos a singularidade que impulsiona a aproximação dos semelhantes, construímos (ou somos influenciados por) inconscientes coletivos que se somam à nossa trajetória histórica de mudanças.
Do micro para o macro podemos ver o Cosmos. Embora a imensidão estonteante do Universo nos impressione, é com os átomos residentes em nossas pupilas que podemos vê-lo.
Não somos o centro do mundo. Mas a visão antropocêntrica e cartesiana, que perdura até hoje, nos levou a um reducionismo dualista insustentável. E a uma crise de Civilização.
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Leonardo Boff: um filósofo além das árvores, um pensador nas florestas.
O filósofo Leonardo Boff, em seu livro “O Despertar da Águia” (Editora Vozes), fez uma das melhores sínteses sobre o dilema que vivemos:
“O ser humano, na sua aventura evolucionária, foi se afastando lentamente de sua casa comum, a Terra. Foi quebrando os laços de coexistência com os demais seres, seus companheiros na eco-evolução. Perdeu a memória sagrada da unicidade da vida nas suas incontáveis manifestações. Esqueceu a teia de interdependência de todos os seres, de sua comunhão com os vivos e da solidariedade entre todos. Colocou-se num pedestal. Pretendeu, a partir de uma posição de poder, submeter todas as espécies e todos os elementos da natureza. Tal atitude introduziu a quebra da re-ligação de todos com todos. Eis o pecado de origem de nossa crise civilizacional que está chegando nos dias de hoje no seu paroxismo”.
Nestes extremos da crise, a sociedade vai trocando valores.

Os agoniados incandescentes, os desesperados sorridentes, são muitas vezes confundidos como eficientes, pragmáticos modernos, competências em flor.
Os insensíveis, de glaciais indiferenças, ao lado dos oportunistas, com suas valentias insanas (para atingir seus interesses), são tidos como os de têmpera, de frieza exemplar, líderes vigorosos.
Citei só dois grupos de manifestação. Se você olhar ao redor poderá identificar outros múltiplos. Não merecemos isso. Ao menos as crianças de hoje não merecem crescer com isso.
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Sei que a nossa capacidade de resposta para esses desafios ainda são insuficientes. Mas isso não justifica, em hipótese nenhuma, cruzar os braços.
Devemos ser inconformados conseqüentes. Precisamos de sonhadores, de semeadores e degustadores dos frutos que vitaminam as simplicidades e a fraternidade. Sei que isso pode parecer romântico aos endurecidos e petrificados. Não importa e tenho esperanças.
Se você chegou a ler este texto até aqui, tenho orgulho de pertencer ao seu time. Estamos fazendo a nossa parte. E dedico-lhe este poema de Apollinaire:
“Cheguem até a borda, ele disse.
Eles responderam: temos medo.
Cheguem até a borda, ele repetiu.
Eles chegaram.
Ele os empurrou… e eles voaram”.
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