Arquivado em junho, 2008

UMA SEMANA VITORIOSA!

 

     São 5 horas da manhã.
 
     Levanto-me, tomo um chá quente, abro o escritório e vou ver se os jornais chegaram.
     Quando chego à varanda, vejo o céu estrelado e a Lua em quarto minguante.
     No jardim, varando os galhos do grande pé de vica, observo Vênus no oeste, tranqüilo, como dizendo que tudo está normal.
     Fico contente com a ausência das nuvens baixas da friagem. Isso vai possibilitar uma boa observação astronômica nas duas noites que passaremos no Seringal Cachoeira com a Sociedade Philosophia.
     Leio rapidamente as manchetes dos jornais e fico rindo comigo mesmo, lembrando-me que na segunda-feira, quando começou o novo fuso, eu é que botei a mão na massa, fiz o café e pus a mesa, porque a secretária ainda estava no Acre de sempre e chegou pelas sete, ou seis, ou sei lá…

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     Faltam dez para as seis.
 
 
Da mesa do escritório, olho por entre as folhas da caramboleira e vejo que o Sol ainda deve estar se espreguiçando, e que a Terra não deu o giro certo para receber as luzes de sua estrela.
     Saio novamente para cubar o escuro. Faz muito tempo que não vejo Antares, o coração do Escorpião, que aparece antes da alvorada. Não consigo encontrá-la. Acho que as palhas do coqueirinho do vizinho a encobrem. E faz tempo também que não vejo o dia amanhecer.
     Desisto, porque tenho este Varal para escrever.
 
     São seis horas da manhã.
 
     Sete luzes brancas acesas na casa.
     Vou ter de apagá-las talvez daqui a meia hora.
     Preciso acender outras luzes na cabeça.
     Preciso escrever que, mesmo com o tempo confuso (e vale o trocadilho), esta foi uma semana vitoriosa!
 
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     Você vê o mundo a depender de onde pisa.
     E há quase um ano armei a minha tenda na Biblioteca da Floresta Marina Silva. Nela, “tenho ouvido muitos discos, conversado com pessoas, caminhando meu caminho” como canta o rapaz latino-americano de Belchior.
     A Biblioteca tem uma equipe muito boa, que sabe respirar a sua essência de dialogar tradição e modernidade.
     O ambiente de livros, exposição, filmes, computadores, memória, debates, cultura e ciência, fizeram com que (além de outras coisas) eu voltasse a dar palestras com todo o gás.
     Contabilizei outro dia, só para efeito de registro, que neste ano dei palestras para mais de mil pessoas.
     Gentes de todos os tipos, lugares, idades e profissões.
     E, sem falsa modéstia, penso que a grande maioria gostou.
 
     São palestras de auto-ajuda, dessas que você paga uns bons 200 reais para ouvir algumas obviedades? Ou partidariamente ideologizadas?
     São palestras de cumprir tabela, dessas que os professores dão faltas se você der uma gazetada? Ou daquelas que você participa por conta do cargo comissionado que possui?
     Não.
     Então, por que dão certo?
     Dão certo porque simplesmente elas falam do combustível que impulsiona a máquina da vida: os sonhos.
 
 
     E, parece paradoxal, aderi à revolução técnico-científica. Me sofistiquei. Internetizei-me de vez. E o Altino Machado quer me dar umas aulas de blog.
     Ainda não sei bem, mas com a ajuda do Rodrigo, Denison, Wesley e Leandro (todos da Biblioteca) vou montando aqui e ali um PowerPoint, garimpo meio sem jeito músicas no Youtube, vasculho fotos no Google, ligo data show e nivelo razoavelmente uma mesa de som. Tudo muito moderno para uma boa apresentação.
   
     Pois bem. Depois de tantas palestras, veio o desafio maior: fazer uma Oficina pública de três dias, voltada para Deus e o mundo que se interessasse, no auditório da Biblioteca. Tremi nas bases.
     Essa idéia de Oficina, como já escrevi aqui no Varal, veio do Binho em 2005. De lá para cá fiz três, mas para públicos dirigidos, preparados, essas coisas.
     Agora fazer uma Oficina pública, anunciada na imprensa, com ficha de inscrição e certificado, era outra coisa.
 
     Primeiro desespero: daria gente?
     Segundo: haveria pessoas que se dispusessem a passar cinco horas discutindo… Filosofia?
     Quatro dias antes cheguei para a Fátima Silva, que coordena os eventos, e perguntei se havia alguém inscrito. Já tinha mais de 40. Me contive prudentemente. Mas já fiquei contente.
     Na terça-feira (24 de junho, São João), primeiro dia da Oficina, me preparei psicologicamente: “se vierem umas quinze pessoas já é muito bom”. As 17h30 desço para o auditório. Pergunto para alguém se tem gente. “Sim, algumas chegaram”.
     Quando fui me dirigindo ao palco a emoção foi me pegando.
     Não acreditei quando vi mais de 70 pessoas sentadas!
 
 
     Advogadas, engenheiros, psicólogas, funcionários da Justiça, servidores do Estado, professores, filósofos, secretários do município, poetas, estudantes de direito, informática, geografia, jornalismo, administração, letras, pedagogia, alguns membros da Sociedade Philosophia e um grupo de alunos da Escola da Floresta, situada a mais de 20 quilômetros da cidade, que trazia também pessoas de Xapuri, Sena e Brasiléia.
 
 
     Várias vezes a Biblioteca encheu seu auditório.
     Mas, para mim, aquela era a lotação mais linda.
 
     Foram três encontros indescritíveis. Momentos de sensibilização à Filosofia, aos nossos sonhos, à valorização da nossa condição humana e da nossa interligação com todos os seres, de comunhão com o mundo, o espaço e o tempo.
     Sei que é muito pouco tempo.
     Mas é bom saber que no Acre, durante três dias, pessoas se reuniram para dar mais sentido a tantas transformações que estamos operando e ainda temos de realizar. 
      Quando, neste domingo, você estiver lendo este Varal de Idéias, saiba que eu me encontro no meio da floresta, no Seringal Cachoeira, em Xapuri, ao lado de 40 membros da Sociedade Philosophia, fazendo uma imersão no nosso tempo e espaço originais.
 
     Me diga: mesmo com o tempo confuso, não foi uma semana vitoriosa?

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