Arquivado em agosto, 2008

O SOL DE SETEMBRO…

 
            Os martelos de Vulcano abrem, a partir de amanhã, as portas do setembro decisivo, que é dedicado a ele.
            O nome do mês vem da expressão latina septem (sétimo), tendo em vista que o calendário romano iniciava-se em março (na Grécia mitológica, chamava-se boedromion).
Vulcano é o deus do fogo.
            E para nós acreanos, ainda pré-socráticos (na afirmação deliciosa do Zé Carvalho), o fogo faz parte de nossas vidas neste mês.
            Já sentimos o setembro no vermelho de um Sol em círculo perfeito, no alaranjado da Lua e no vento azulado da fumaça que se espalha pelo dia, numa aquarela trágica e bela.
Sinto que há uma inversão sobre nossos pitacos meteorológicos. Há não muito tempo, ficávamos tentando adivinhar quantos dias duraria uma friagem de junho, que ultrapassava semanas. Agora, ficamos discutindo o nível da fumaça nas manhãs de setembro.
            E temos um referencial: o fatídico ano de 2005.
            Lembram que a cidade tingiu-se de um cinza fantasmagórico? Que não víamos a Ponte Velha quando atravessávamos a Ponte Nova? Que os alunos saíram em passeata pela Getúlio Vargas, braços erguidos, palavras de ordem, com máscaras cirúrgicas no rosto? E o rio Acre praticamente seco, tão fraquinho, fio de vida?
            Foi um setembro assombroso. Vulcano sentiu-se celebrado no arco do desmatamento, no grosso mato incendiado, na pira rondoniense e nas bolívias incandescentes. Claro que também carregamos a tocha, mas nossas estatísticas foram menores, se é que vale ranquear essas questões.
            Foi um setembro deprimido, o de 2005. E reflexivo.
            Eu, particularmente, ficava imaginando em que pé ou fogo estava o pensamento daqueles que na década de setenta, aqui no Acre, tinham gasolina nas veias e moto-serra nas mãos, olhos esbugalhados e bocas ávidas de pastos e ganância, e dos discursos flamejantes a favor do “progresso”.
            (E lembro perfeitamente das humilhações que sofriam os seringueiros, os ambientalistas, religiosos, artistas e lideranças populares que se rebelavam por ver o Acre arder).
            Pois bem. Como estariam aqueles pensamentos no setembro de 2005? Como sou um sonhador inveterado, graças a Deus, com pitadas de romantismo e com uma reserva razoavelmente larga de compaixão, cheguei a imaginar alguma auto-crítica por parte deles, porque certamente suas crianças ou netos também adentravam os consultórios e hospitais com as crises respiratórias ou, mais certo ainda, as suas viagens de férias ou negócios se prejudicavam por conta dos cancelamentos dos vôos de um aeroporto onde a fumaça era cortada com a espada.
             Penso que naveguei no mar das ilusões, tendo em vista que ainda batem em nossos barcos as ondas ressentidas, as marolas da raiva desses senhores que, até hoje, não admitem o crescimento da consciência ambiental, que vociferam contra as novas políticas sustentáveis no Acre e se abrigam em partidos e agremiações que se alimentam do velho, da antiga política. Para muitos, bons eram os tempos da degola das árvores centenárias, do estorricar dos igarapés nos pastos, dos incentivos financeiros suspeitos, da vergonhosa cumplicidade politiqueira com os que ocupavam o Palácio Rio Branco.
            Alguns desse segmento, justiça seja feita, se adaptaram aos novos momentos, criaram práticas modernas de produção, conseguiram suportar o diálogo. Outros aguardam momentos oportunos, alimentam esperanças de um regresso ao poder, de buscar o lucro ilimitado, como se infinita fosse a natureza, a floresta. São os antropocêntricos vulgares, a representação rasa e bárbara do capital. E existem. Basta ver suas movimentações no Congresso Nacional ou nas tergiversações descaradas que fazem agora nos programas eleitorais.
 
            Vulcano (Hefaísto), o deus do fogo, na Mitologia Grega.
 
            Todos nós fizemos uma reflexão naquele setembro de 2005, para negar ou afirmar práticas de desenvolvimento.
            Mas parece que para os Neros do desmatamento e queimadas aquele mês não existiu. Outro dia vi, na TV, um dos seus líderes na Câmara dos Deputados afirmar, cínica e arrogantemente, que não se poderia mudar “práticas de 100 anos”, como se não fosse essa prática equivocada a responsável pela situação e como se não  estivessem, aparentemente cândidos, defendendo a ditadura do silêncio em defesa de suas ações destruidoras.
            A Amazônia e o Acre precisam da sustentabilidade em todos os seus campos, de um desenvolvimento inteligente, sensato. Teses que apavoram os fundamentalistas das chamas. Mas é a própria sociedade que vai incorporando esses conceitos, pelo bem do presente e do futuro. Já é um mínimo alívio.
            Talvez este setembro não seja tão nefasto como o de três anos atrás. Ao menos aqui no Acre, estamos tentando fazer o dever de casa. Mas sabemos que os ventos não possuem fronteiras e por isso a insensatez dos vizinhos do leste ainda será inalada por nossas crianças.
            É um esforço hercúleo (já que estamos nos mitos gregos) a saída correta para o desenvolvimento da Amazônia. Talvez as crianças de hoje se apiedem de nós no futuro, quando elas farão um mundo mais afirmativo. Acredito nisso. Senão, é o fim.
            O mês do deus Vulcano é a ante-sala das eleições municipais do dia 05 de outubro.
            Sei onde estão os candidatos da gasolina.
            E sei onde está o candidato da sustentabilidade.
            Erguerei a Vulcano o fogo amorosamente a nós ofertado pelo Titã Prometeu, aquele que serve para nos alimentar, dar vida, e que nos ensina a conservar a mais intensa forma de energia: o calor humano.

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