Arquivado em março, 2009
A VISITA DA POETISA
Publicado em 22 / mar / 2009.
Acervo Biblioteca da Floresta
.jpg)
Walquíria Raizer, Elson Martins e eu, na Biblioteca da Floresta…
Walquíria Raizer é uma das maiores poetisas do Acre, autora do livro “O Segundo Ponto das Reticências”.
Nesta segunda, 16 de março, ela fez uma visita emocionada à Biblioteca da Floresta “para recarregar as energias”.
Walquíria, que exerce produtiva influência no mundo cultural acreano, há mais de um ano armou sua tenda no Rio de Janeiro onde navega nas luzes do cinema, fazendo curso de Roteiro.
Formada em Ciências Sociais, com especialização em Jornalismo Político, Walquíria vem mantendo importantes contatos com artistas e intelectuais do eixo Rio-São Paulo, divulgando o Acre e a Amazônia, e se prepara para outro lançamento de livro em co-autoria com Ziraldo, sobre Chico Mendes criança, a ser publicado em julho.
“Meu trabalho na ANCINE e os estudos são intensos. Tirei uma semana para recarregar as energias. E só podia ser no Acre, começando pela Biblioteca da Floresta, que é linda!”, declara Walquíria.
A emoção de beber novamente a água do rio Acre era tanta que pedimos para ela escrever suas impressões ao Varal de idéias.
Ela escreveu, as fotos são dela e o Elson Martins deu o título:
O ACRE É UM MENINO
.jpg)
Meu pai um tanto mais magro e os cabelos bem mais brancos. Dei três passos, que pareceram dez.
- Você demorô, fia.
O aeroporto de Rio Branco cheio de abraços. Estava em casa. Eu estava em casa.
Há um ano e dois meses ganhei uma bolsa de uma escola de cinema. Parti.
Havia acabado de lançar o meu primeiro livro e nunca tinha morado fora da Amazônia. Não foi uma decisão fácil, não é.
Estou na escrita do primeiro longa. Travei.
Caminhei até meu chefe e pedi:
- Preciso ir ao Acre, por favor, eu preciso.
Andando pelas ruas de Rio Branco e vendo em cada canto um amigo. Abraçando a todos e lembrando de todas as lutas, de todos os sonhos.
.jpg)
A chuva está caindo e uma mulher conversa no mercado. Escuto sua fala pra reconhecer a minha. Outra vem, que nem conheço:
- Maninha, entrou água no celular. Nem ta ligando ó!
Sorrio, enquanto Bane me faz uma pintura. Logo vem Rita do Vivarte. Tenho que encontrar Gesileu. Escrever um texto. Ver os meus.
Sento na praça e espero perguntarem pelo tanto de goma.
- Igual. Meu amor pelo Acre é igual. Do tipo recíproco.
Não há nada como essa terra.
- Todo mundo no Acre é poeta? E chora?
- É, todo mundo no Acre é poeta. E chove.
Precisava vir pra casa, olhar o rio e não ter medo do mar.
O mundo é tão grande, que se a gente não souber quem é, a gente se perde.
Ando nas ruas e me lembram das oficinas, das reuniões, dos encontros de cultura popular. Um que fomos de ônibus à Brasília. No caminho, conversamos sobre a significância do jabuti. Surgiu o Bumbá, o Jabuti Bumbá. Outra vez, indo pra rádio, o Gregório me disse:
- Vamos fazer muitas casas de leitura. Mudar a Fundação daqui e fazer dela só Biblioteca.
O Dalmir Ferreira falando do Conselho:
- Um Conselho de Cultura!
Vejo o tempo, seguro ele.
É um depoimento esse. De alguém que está com o coração aos pulos. Que não sabe se ri, ou se chora. Mas que está feliz, por tudo.
No Acre tem uma coisa diferente, que é a fé. O seringueiro anda a estrada de seringa porque tem fé. Fé que consegue.
No Rio, estudando, procurando emprego, casa pra morar e tentando manter o rumo, lembrava disso. No Acre, a gente tem fé. Seu Minino a gente vai devagar, mas a gente chega. A gente chega.
.jpg)
Atravesso a ponte, fotografo o rio, que é torto. Cadê o Pia?
Ivan de Castela? Seu Bianor, Mãe Laura, Regina, Lene, Toinha, Alcântara, Lenine, João Veras? Ando mais um pouco e Laurêncio está mostrando um filme. Adalberto vai me dar umas fitas. Estou em casa. Estou em casa.
Queria mostrar meus poemas, escolhi uns três e mandei por email. Do outro lado, em Brasília, Marcos Afonso lia. Minha surpresa quando resposta. Meu professor dizia pra sonhar.
Hoje, tantos anos depois, na Biblioteca Marina Silva, Marcos e outro mestre, Elson Martins, me dizem de novo pra sonhar. E pedem que escreva:
Rio Branco, 22 de março de 2009.
Queridos Marcos e Elson,
Acho que a gente precisa mesmo ver fora pra ver dentro. Há coisas bonitas de olhar.
O eixo Rio-São Paulo foi perdendo o seu silêncio. Não aquele de zuadas. O silêncio que vive dentro.
Penso que o Acre é um menino. Daqueles que as mães ficam correndo na sala, e que não param de incomodar.
O menino é bem mais novo que os outros, e talvez por isso, não tenha tanto medo de errar. Não tem todas as respostas, mas gosta de perguntar.
Volto pro Rio com a certeza de que os sonhos são nossas estradas de seringa. Onde quer que a gente vá.
Beijos e abraços,
Walquíria Raizer
Para conhecer os poemas de Walquíria Raiser acesse o blog dela:
Categoria Artigos. 17 Comentários.
