Arquivado em junho, 2009

O FUTURO SEGUNDO OS SÁBIOS…

 

O climatologista Wallace S. Broecker, os físicos Peter Zoller e Ignacio Cirac, o pesquisador em biomedicina Joan Massagué, os ecólogos Thomas Lovejoy e William Laurance, o engenheiro Jacob Ziv, o economista Jean Tirole, o arquiteto Steven Holl e a especialista em cooperação Esther Duflo, do Laboratório de Ação contra a Pobreza Abdul Latif Jameel (MIT), se reuniram na última quinta-feira por ocasião da entrega dos prêmios Fronteiras do Conhecimento, da Fundação BBVA (Banco Bilbao Viscaya Argentaria), para comentar os desafios científicos e sociais atuais. O texto que estendo no Varal é um resumo da visão do futuro desses sábios.
 
A reportagem é de Malen Ruiz de Elvira, publicada no jornal El País. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Lançado originalmente (26-06-2009) pelo Instituto Humanitas (www.unisinos.br).
 
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Cirac (Física). Estou convencido de que os avanços futuros serão muito mais importantes do que os passados, mas é difícil prever quais serão. Qual é a origem da vida, qual é a origem da complexidade, esse é um dos maiores desafios.

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Massagué (Biomedicina). Estamos entrando em uma era de grandes mudanças em todas as áreas da medicina, como as doenças neurodegenerativas, mas ainda nos falta muito a desenvolver. O novo surto de gripe é um exemplo. No câncer, conhecer melhor os fatores de risco próprios e ambientais é vital.
 
Laurance (Ecologia). Nos últimos anos, já tivemos grandes surpresas, como a descoberta da enorme biodiversidade dos microorganismos oceânicos. Os próximos anos serão muito interessantes.
 
Lovejoy (Ecologia). Na verdade, não acredito que logo vai acontecer algo tão importante como foi a teoria da evolução, mas temos grandes desafios ambientais, como saber como as mudanças climáticas vão afetar as chuvas, especialmente na floresta tropical. Precisamos de muito mais informação.
 
Broecker (Climatologia). As mudanças climáticas não são reversíveis a curto prazo, e não acredito que logo se deixem de utilizar os combustíveis fósseis. Temos que projetar métodos para tirar o dióxido de carbono da atmosfera e armazená-lo de forma segura
 
 
 
 
Ziv (Engenharia). Nas tecnologias da informação, estamos construindo pontos com especialistas em computação quântica, com os biólogos, especialistas em sistemas complexos. Prever é muito difícil. O que está claro é que passou o tempo do inventor isolado. Tudo em que avançarmos será fruto da colaboração, mesmo que não se possa esquecer a importância da ciência básica especializada.
 
Tirole (Economia). Os economistas progrediram de forma importante nos últimos 30 anos, e acreditamos que sabemos muito, mas, na realidade, falta-nos muito por saber em algumas áreas. Uma área muito ativa de pesquisa é a interação com as outras ciências sociais, com sociólogos, psicólogos, especialistas em direito, para incorporar a racionalidade real dos seres humanos a nossos modelos.
 
Duflo (Cooperação). Um ramo da nossa atividade é puramente científico. Ninguém havia pensado antes em fazer o que nós fazemos, experiências como os médicos, mas sobre a efetividade dos projetos de cooperação. Com relação à ciência em geral, é útil pensar nela como uma bola. Todos nós trabalhamos para acrescentar uma camada a mais a essa esfera, mesmo que, cada vez mais, há mais trabalho a fazer. Não se trata de preencher vazios, mas sim de tornar a bola maior, e assim novas perguntas são propostas continuamente.
 
Zoller (Física). A física é, no fim, experimental, e sempre se pode produzir surpresas. Reconciliar a relatividade com a mecânica quântica é um grande desafio, assim como interconectar as diferentes áreas da ciência, a biologia com a física, por exemplo.
 
Holl (Arquitetura). Sou muito otimista sobre as possibilidades da arquitetura. Vou dar alguns exemplos, como a luz. A iluminação com diodos LED é 500 vezes mais eficientes do que a tradicional. Vejo setores inteiros das cidades que terão uma pegada zero de CO2, que estarão em equilíbrio com o ambiente. A tecnologia nos permitirá desfrutar mais a vida. É preciso pensar no que os elevadores supuseram no século passado, e vejo avanços tecnológicos no futuro de importância semelhante.
 
Massagué (Biomedicina). A ciência, especialmente as ciências da vida, devem se guiar pelas necessidades da sociedade. Os cientistas, nem todos eles, nem sempre, mas sim coletivamente, devem estar atentos ao que seu trabalho pode significar. E, nos aspectos éticos da medicina, falta o diálogo, que seria bom se os próprios cientistas o iniciassem. É importante ter em conta esses aspectos e também que eles não sejam manipulados.
 
Lovejoy (Ecologia). É crucial que combinemos nossos conhecimentos para projetar um futuro sustentável. Para isso, devemos conhecer como o planeta e o clima funcionam, como eliminar os gases do efeito estufa.
 
 
 
 
Laurance (Ecologia). Os desafios aos quais enfrentamos derivam de um mundo que está mudando simultaneamente em muitos aspectos. Uma grande questão é a população, que afeta todas as áreas aqui representadas. No entanto, a relação da população com os graves problemas mundiais não se reflete suficientemente, seguramente porque é um tema politicamente sensível. Deveríamos debater muito mais sobre a população.
 
Broecker (Climatologia). Tendemos a esquecer que os grandes consumidores de energia do futuro serão os atuais países pobres. Do ponto de vista ético, devemos ajudá-los a dispor de energia barata, mais do que os impedir. A pobreza é um dos maiores problemas do mundo, e, para aliviá-la, a energia é necessária.
 
Ziv (Engenharia). Conseguir aplicar regras éticas nos meios de comunicação é difícil e não acredito que devam ser os governos que façam isso. O que eu espero é um serviço que avalize a qualidade dos conteúdos da Internet. Talvez seja preciso pagar por isso, mas é a melhor solução do que tentar regulá-la.
 
Tirole (Economia). Na economia, a ética está praticamente limitada aos temas de redistribuição da riqueza aos países pobres, a como fazemos isso eficientemente. Mas, nas mudanças climáticas, o papel dos economistas é minimizar os custos para alcançar os objetivos, porque, se os custos se multiplicam, a luta contra as mudanças climáticas não é viável.
 
Duflo (Cooperação). A ética é a base do nosso trabalho, e o que não é ético é gastar toneladas de dinheiro, não só dos países ricos, mas também dos próprios países pobres, para ajudar os pobres sem nos darmos o tempo de ver se esse gasto foi útil ou não.
 
Cirac (Física). O que descobrimos sempre pode ser utilizado para o bem ou para o mal, e essa é, em parte, a nossa responsabilidade, da mesma forma que a de informar a sociedade sobre o que fazemos.

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