Arquivado em março, 2010

O SOL, O MAR E O POETA…

FOTO: PATRYCIA COELHO

FOTO: PATRYCIA COELHO

Da janela do apartamento, vemos o Jardim de Alah, um conjunto de praças com amendoeiras e abricós-do-mar que divide os bairros de Ipanema e Leblon desde os anos 1930, guardando o canal umbilical da lagoa Rodrigo de Freitas com o oceano Atlântico.

Também da janela, a cada manhã, nos deslumbramos com a sorte, muita sorte, de ver o sol se derramando na cidade, num intervalo condescendente das águas de março que fecham o verão. E assim começamos os dias largos e claros, às margens da baía da Guanabara.

Guardei o encontro para a tarde da última quinta feira, 25 de março.

Um calor rigorosamente carioca se espalhava na cidade.

Vesti a calça social do terno, a camisa nova listrada e limpei os sapatos pretos. Fomos de táxi, pela praia de Ipanema, passamos pelo Arpoador e avistamos o Forte. Em silêncio, pedi permissão à Nossa Senhora de Copacabana para entrar no seu reino e bem devagarzinho o carro foi margeando a calçada da Avenida Atlântica em busca do nosso ponto.

Lá estava ele.

Seu rosto protegia-se do sol das três e meia. E muito calmamente ficou observando a nossa chegada. Sentei ao seu lado e começamos nosso diálogo silencioso…

Falei do nosso rio, de um Acre e de uma cidade que estavam escritos na floresta. Pedi conselho para as alegrias e os tormentos. Disse-lhe dos meus amores, dores e piedades. Depois, para que ele não se assustasse, solicitei – baixinho – que cumprimentasse meus amigos e amigas que estavam ao nosso redor com seus invisíveis carinhos.

Contei-lhe meu maior e mais público segredo: que eu era um sonhador e que também acreditava ser possível nascer uma flor no asfalto. Fiz mil perguntas. E por último, para não cansar-lhe, perguntei como ele estava se saindo no seu novo mundo.

Fiz minha despedida. Levantei-me e, caminhando em direção ao Forte de Copacabana, senti nas linhas das minhas mãos o delicado presente do meu poeta: todas as respostas e saídas estavam dentro de mim mesmo…

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