Arquivado em abril, 2010
INAUGURAR FUTUROS…
Publicado em 25 / abr / 2010.
Foto: Marcos Afonso
Tudo começou neste abril quando vieram os presentes.
Primeiro foi a charmosa mini-geladeira Brastemp, com aqueles quatros pés palito, que ocupou nobre espaço na sala. Dias depois, chegou o gorducho relógio de corda, vermelho, com os dois gongos do despertador, números, ponteiros, tudo como era, da Tok&Stok (mais na frente, comprei um filhote da Quartz para o relojão, uma família!).
Por fim, emoção para os ouvidos: um Rádio Vintage, dial de ponteiro, com AM/FM, armado de pequena antena e três pilhas Rayovac que puxam a Difusora e a Aldeia FM.
Foto: Marcos Afonso
Foi quando me dei conta de que estava rondando umas antigas saudades em plena pós-modernidade. Fiquei muito curioso, mesmo sendo devoto de Picasso que disse ser preciso muito tempo para ser jovem, coisa que acredito fervorosamente, boto fé e queimo as mãos.
Então resolvi fazer uma profunda, contundente e silenciosa meditação transcendental em busca de respostas. Horas, segundos, milênios depois, me encontrei – bastante aturdido – frente a frente com a linda Pítia, sacerdotisa do templo de Apolo, nas colinas ventiladas de Delfos, para escutar os augúrios.
A cidade grega de Delfos…
Demorou a sessão e o debate sobre o motivo das minhas saudosidades.
A sacerdotisa, viajando nos universos paralelos da teoria das supercordas, decidiu rememorar-me esta última semana de abril, já que todo o mês demoraria uma calenda.
Resumiu-me a semana. Foram vários os dias dedicados: do livro, do índio, da Terra, do disco(?) e do Chorinho. Disse-me também as datas históricas: Tiradentes, Descobrimento, Revolução dos cravos, aniversário de Brasília (com certo pesar, pelas vergonhas recentíssimas…). Por fim, e cheia de alegria, anunciou-me o início do reinado de Touro, os ocorridos nascimentos de Shakespeare e Lênin – e para dar alento ao meu patriotismo – contou-me a chegada ao mundo de Agostinho dos Santos e São Pixinguinha.
O templo de Apolo, onde conversei com a linda Pítia…
Passado um tempo e olhando as verdes colinas, Pítia respirou forte e prolongadamente, dizendo: “Nesta semana estão também lembrados meus diletos companheiros de celestialidade: o Expedito – para as dívidas, desesperos e amores perdidos – e meu caro São Jorge, da proteção e justiça, que ainda peleja com o dragão na lua, só que agora pelo lado escuro”…
Fiquei esperando… Mas e os augúrios que as lembranças possam estar anunciando?
A Pítia disse-me estar cansada. Entretanto, vendo meu nervoso, ordenou: “Vá à frente do Templo, pois lá estão escritas no pórtico as tuas respostas”…
Corri. E munido de um dicionário espiritual, li atentamente: “Conheça-te a ti mesmo” e logo abaixo: “Nada em excesso”.


Acordei suando em cântaros e, com os olhos fechados, resolvi relaxar, procurando entender as frases.
E lá vieram as novelas de rádio (“O Egípcio” e o “Direito de Nascer”). O guaraná Artárctica, a pequena garrafa térmica, o Biotonico Fontoura, os produtos Granado, a pasta Colgate e os sabonetes Palmolive e Phebo. E também os livros, as velhas agendas, cadernos de notas estilo Moleskine, a lupa, as miniaturas, os VHS e a deusa Artemis em gesso.
E fui me reconhecendo neles, constatando que cada um teve a sua medida certa, no tempo em que eram necessários.

A cada ano em abril me chegam os grandes pensamentos típicos dos aniversários. Grandeza que nem sempre significa profundidade. Mas trazem algum proveito.
Minhas saudades foram ingênuas, simples, mas decididamente importantes, porque ao lado de cada objeto, situação, estava sempre uma esperança, uma vontade de mudança, um querer de liberdade.
Chego à conclusão de que estas memórias disseram-me que as tristezas na minha vida foram menores e grandes os desertos sobrevividos.
A cada abril conheço-me um pouco mais e modero meus excessos.
Assim, vou continuar recebendo meu maior presente: o de inaugurar futuros…
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