Arquivado em junho, 2010
A PILAR DE SARAMAGO…
Publicado em 20 / jun / 2010.
“NOSSA ÚNICA DEFESA
CONTRA A MORTE É O AMOR”
(José Saramago)
Todos os relógios na casa de Saramago em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, marcam 4 horas da tarde.
Foi o momento em que ele viu pela primeira vez a jornalista sevilhana María del Pilar del Río Sánchez, o grande amor da sua vida, em 1986.
Juntaram-se em 87 e casaram-se em 88.
Vinte anos depois, aos 84 anos, o escritor resolveu se casar pela segunda vez com a mesma Pilar – agora com 56 anos e sua tradutora para o espanhol – numa cerimônia civil em Castril, nos arredores de Granada, na Espanha, terra da companheira.
A história de amor do casal foi inspirada pelo livro “O Memorial do Convento”. Pilar se apaixonou primeiro por Blimunda, personagem central do romance. Também jornalista, viajou até Lisboa para entrevistar o autor. Nunca mais se separaram.
Pilar descreve o início do romance nesta entrevista dada em outubro de 1998, à “Público”:

“Vi um livro chamado “O Memorial do Convento”, e achei curioso o título. Li uma página, li o arranque, comprei, fui para casa e devorei-o.
“Regressei à livraria de Sevilha e comprei todos os Saramagos traduzidos. Quando acabei de ler “O Ano da Morte de Ricardo Reis” foi uma comoção muito forte e decidi fazer o que não tinha feito nunca, senti a necessidade de seguir aquele itinerário lisboeta, senti que tinha a obrigação moral de dizer a José Saramago o que tinha experimentado com a obra. Um autor só acaba a sua obra quando o livro é lido e entendido. E eu queria dizer-lhe: completou-se o ciclo, li-o e entendi-o então, vim com o meu livro e com “O Livro do Desassossego” do Pessoa. Aterrei na Portela com o número de telefone de Saramago no bolso.

“Naquela tarde de 1986, Saramago ainda estava suficientemente disponível para ser ele a ir ter comigo, a jornalista espanhola que lhe telefonou, entusiasmada. Aí vai ele a caminho do hotel Mundial, imprevidente, sem saber o que pode resultar de “tomar um café”. Eu estava no quarto, desci, saí do elevador e vi um senhor alto… não sei por que tinha imaginado um homem baixo… apertamos as mãos, apanhamos um táxi, fomos ao cemitério dos Prazeres, ao túmulo de Pessoa, lemos um fragmento de Pessoa, voltamos ao hotel num táxi e despedimo-nos à porta, com um aperto de mãos.

“Não foi apenas isto, foi também o encontro entre dois marxistas convictos. Falamos de política, do que se passava na Europa, e demo-nos conta de que estávamos no mesmo sítio, que os dois éramos marxistas, os dois éramos comunistas e aos dois nos interessava literatura. “Voltei para casa ‘com uma estranha paz’”.

Em três de Junho de 2008 celebrou-se aquele que o escritor considerou o “terceiro casamento”, quando o Pilar del Rio passou a ser nome de rua em Azinhaga, fazendo esquina precisamente com a rua Saramago. A musa do autor tornava-se, também “filha adotiva” da terra-natal do seu amado.
Na esquina das ruas está uma placa, de azulejos, com orla em tons de amarelo, exibindo o nome de Pilar del Rio seguido da citação constante no livro Pequenas Memórias: “A Pilar que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar”. Pilar, que recebeu uma réplica da placa toponímica, desejou que “todos os enamorados do Mundo se encontrem e dêem um beijo nesta esquina”.

Uma declaração de José Saramago ao “New York Times”, numa entrevista à jornalista Fernanda Eberstadt, resumiu a relação forte que desenvolveu com sua mulher:
- “Se eu tivesse morrido antes de te conhecer, Pilar, teria morrido sentindo-me muito mais velho. Aos 63 anos, a minha segunda vida começou. Não posso queixar-me. As coisas que você considera importantes não são tão importantes. Eu ganhei um Prêmio Nobel. E daí?

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“Não temo a morte. O pior da morte – isso sim dói – é que a pessoa estava e de repente deixou de estar, se acabou. Creio que a esperarei muito pacificamente, tenho consciência de que a vida não pode ser muito mais longa. Terei mais três ou quatro anos, talvez menos, mas não há problema”. (Ópera Mundo, junho de 2009)
“Acho que na sociedade atual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de reflexão, que pode não ter um objetivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objetivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem idéias, não vamos a parte nenhuma”. (Último post do site http://caderno.josesaramago.org).

JOSÉ SARAMAGO (1922 – 2010)
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