Arquivado em julho, 2010
A CHUVA DO VINICIUS DE MORAES…
Publicado em 11 / jul / 2010.

Acredita? Só choveu forte mesmo no centro de Rio Branco, na tarde da última sexta-feira. E nem pude saudar as águas que vieram apascentar esse calor tenebroso que vem nos ardendo ultimamente.
Eu estava no aconchegante e quase subterrâneo auditório da Biblioteca da Floresta, terminando uma oficina de 8 horas para um grupo atento de funcionários públicos, exatamente sobre o espaço e o tempo.
A Oficina é sobre ética e cultura e, logo no seu início, eu apresento um vídeo com a música “Rosa de Hiroshima”, para exemplificar um dos momentos mais críticos do antropocentrismo na história recente.
“Rosa de Hiroshima” é um poema de Vinicius de Moraes.
Em 1973, o grupo “Secos & Molhados” lançou o poema musicado por Gerson Conrad e a voz de Ney Matogrosso a tornou imortal. A canção é um grito pacifista e antinuclear, lançada em plena ditadura militar no Brasil.
Ainda semana passada, no Festival Chico Pop – no show do grupo cearense “Os Sonsos” – subiu ao palco o próprio Gerson Conrad que, improvisadamente, cantou sua “Rosa de Hiroshima”. Um silêncio emocionado tomou conta do Anfiteatro Jorge Nazareth. E eu, num dos degraus da arena, só pude mesmo baixar a cabeça e com os olhos cheios d’água, agradecer aquele presente que a vida me ofertava.
Pois bem, a minha Oficina termina com outro poema de Vinicius de Moraes: “Poética I”, maravilhosamente declamado por Maria Bethânia para introduzir sua interpretação, igualmente maravilhosa, da música “Oração ao Tempo”, do irmão Caetano Veloso.

Por conta da chuva, a noite de sexta ficou morna e resolvemos jantar comida japonesa.
Eis que no restaurante encontramos nosso querido amigo jornalista e colunista Moisés Alencastro, ladeado pelas competentes Charlene Carvalho e Surama Chaul (com sua mãe).
Conversamos sobre as redes sociais. Moisés, entusiasmado, tenta me convencer a entrar no twiter. “Não tenho tempo, Moisés…” “Mas Marcos, você iria sacudir… hoje mesmo, eu postei a data da morte do Vinicius de Moraes e a cidade toda ficou comentando…”
Pronto.
Sexta-feira, 9 de julho de 2010. Há 30 anos partia o poeta do Amor. E a conversa com o Moisés me inspirou a estender no Varal os dois poemas de Vinicius que apresento na Oficina “Ética e Cultura no Tempo e no Espaço”.
ROSA DE HIROSHIMA
(Vinicius de Moraes)

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada

VEJA NO YOUTUBE:
http://www.youtube.com/watch?v=9YJaaVAQ5lE&feature=player_embedded

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.
A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.
Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem
Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.
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