Arquivado em agosto, 2011

PASSA UM RIO DEBAIXO DO RIO…

              Ele nasce nos Andes, mas começa no Acre o seu passeio silencioso.

            É o Rio Hanza, companheiro subterrâneo do Amazonas, a 4 mil metros de profundidade e 6 mil quilômetros de extensão, do Acre ao Atlântico.

            No momento em que esgotamos seus recursos naturais em busca de um desenvolvimento a todo custo, no instante em que usurpamos os humores do seu próprio clima e de sua temperatura, no período em que nos tornamos predadores das vidas que residem em suas águas, solos e ares, ela, a Mãe Terra, dadivosa e incondicional, sempre nos surpreende com seus presentes maravilhosos.

            Até quando nossa deusa Gaia terá tanta paciência conosco?


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            Terá sempre a Grande Mãe um infinito amor?         

Nosso Varal de Ideias homenageia essa grande descoberta publicando a reportagem do Terra da Gente, com info Globo Natureza (26.08.11), intituladaRio subterrâneo na Amazônia”.

            Um estudo feito por pesquisadores da Coordenação de Geofísica do Observatório Nacional (ON), no Rio de Janeiro, revela indícios da existência de um rio subterrâneo, com a mesma extensão do Rio Amazonas, que estaria a 4 mil metros abaixo da maior bacia hidrográfica do mundo.  

            O Rio Hamza nasce no Peru, na Cordilheira dos Andes, mesma região que o Rio Amazonas. “Essa linha de água permanece subterrânea desde sua nascente, só que não tão distante da superfície. Tanto que temos relatos de povoados daquele país, instalados na região de Cuzco, que utilizam este rio para agricultura. Eles sabem desse fluxo debaixo de terrenos áridos e por isso fazem escavações para poços ou mesmo plantações”, afirmou o pesquisador indiano Valiya Hamza, do Observatório Nacional.  

            O fluxo da água deste rio segue na vertical, sendo drenado da superfície até dois mil metros de profundidade. Depois, próximo à região do Acre, o curso fica na horizontal e segue o percurso do Rio Amazonas, no sentido Oeste para o Leste, passando pelas bacias de Solimões, Amazonas e Marajó, até adentrar no Oceano.  

            “A água do Hamza segue até 150 quilômetros dentro do Atlântico e diminui os níveis de salinidade do mar. É possível identificar este fenômeno devido aos sedimentos que são encontrados na água, característicos de água doce, além da vida marinha existente, com peixes que não sobreviveriam em ambiente de água salgada”, disse.  

            A descoberta desse novo curso de água é fruto do trabalho de doutorado de Elizabeth Pimentel, sob orientação de Valiya Hamza. Ela indica que o rio teria 6 mil quilômetros de comprimento e entraria no Oceano Atlântico pela mesma foz, que vai do Amapá até o Pará. A descoberta foi feita a partir da análise de temperatura de 241 poços profundos perfurados pela Petrobras nas décadas de 1970 e 1980.  

“A temperatura no solo é de 24 graus Celsius constantes. Entretanto, quando ocorre a entrada da água, há uma queda de até 5 graus Celsius. Foi a partir deste ponto que começamos a desenvolver nosso estudo. Este pode ser o maior rio subterrâneo do mundo”, afirma Hamza.  

            “Não é um aquífero, que é uma reserva de água sem movimentação. Nós percebemos movimentação de água, ainda que lenta, pelos sedimentos”, disse o pesquisador cujo sobrenome batizou o novo rio.

            Apesar de ser um rio subterrâneo, sua vazão (quantidade de água jorrada por segundo) é maior que a do Rio São Francisco, que corta o Nordeste brasileiro. Enquanto o Hamza tem vazão de 3,1 mil m³/s, a do Rio São Francisco é 2,7 mil m³/s. Mas nenhuma das duas se compara a do Rio Amazonas, com 133 mil m³/s.  

“A velocidade de curso do Hamza é menor também, porque o fluxo de água tem que vencer as rochas existentes há quatro mil metros de profundidade. Enquanto o Amazonas corre a 2 metros por segundo, a velocidade do fluxo subterrâneo é de 100 metros por ano.  

            Outro número que chama atenção é a distância entre as margens do Hamza, que alcançam até 400 quilômetros de uma borda a outra, uma distância semelhante entre as cidades de São Paulo e o Rio de Janeiro.  

“Vamos continuar nossa pesquisa, porque nossa base de dados precisa ser melhorada. A partir de setembro vamos buscar informações sobre a temperatura no interior terrestre em Manaus (AM) e em Rondônia. Assim vamos determinar a velocidade exata do curso da água”, complementa o pesquisador do Observatório Nacional.


Gaia, a deusa da Terra, de Anselm Feuerbach (1875).

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