SAINDO DA ESTRADA…
Publicado em maio 16th, 2010.

Resolvi pegar um táxi na minha última noite em são Paulo. Saía do Reserva Cultural, um subterrâneo com restaurantes, livraria e quatro boas salas de cinema, na suntuosa Avenida Paulista. Tinha acabado de ver o “assistível” Soul Kitchen, comédia alemã, de Fatih Akin, uma massa com molho pouco denso de suposta crítica cult – gastronômica ao capitalismo.
Dentro do táxi, volto a pensar na similaridade das sirenes que nunca param. É quando São Paulo vira Nova York, nas noites em que todos são pardos. Da Paulista para a Ipiranga, sou guiado pelo motorista João Meneses, que orgulhosamente não para de apertar, teclar, mudar, o negócio colorido logo atrás do volante. Pergunto. “É um GPS!” “O senhor é de onde? Acre? Me dê seu endereço de Rio Branco agora. Um instantinho…” E o carro ziguezagueando. “Só mais um pouco, assim… Veja: o senhor está a 3.772 quilômetros longe da sua casa! Isso é certíssimo, coisas de chineses, 200 reais!”.
Com todas essas medições globais, onlineais, chego salvo ao hotel e preparado para arrumar malas e juntar as muitas saudades que foram se acumulando.
É quando me identifico com o filme “A Estrada”, de John Hillcoat, baseado na obra do fabuloso escritor norte-americano Cormac McCarthy, que já venho lendo há certo tempo.
O filme é uma metáfora. A busca do outro, do coletivo cultural, da persistência em enfrentar o inóspito para assegurar identidades. Com uma fotografia maravilhosamente cinza (de Javier Aguirresarobe), “A Estrada” te conduz lentamente à reflexão, aos sintomas dos extremos, às singelezas dos descampados da alma humana, onde a “segurança” pode estar aqui, ali, ou no inimaginável (quem for assistir, atente para o papel do cachorro, por exemplo, sem querer estragar).
Então, percebi que já estava na hora de sair da estrada e voar para a minha aldeia.

Essa coisa de regresso começou a bater forte quando assisti o Documentário “Depois de Ontem, Antes de Amanhã”, de Christine Liu, sobre o cotidiano no pobre vilarejo de Araçoiaba, perto de Recife, ou seja: no Brasil real. Sentei-me confartabilissimamente na poltrona asséptica do Cine Bombril, às 13h10, em plena Avenida Paulista com, com mais… quatro pessoas.
Mas antes, prazerosamente, tinha de fazer um programa agora comum nas minhas viagens: ir aos mercados.

Comecei com o maior templo deles: o belíssimo Mercado Municipal.
Nele o mundo se condensa. É um oásis onde camelos de todos os pontos cardeais trazem especiarias, grãos, temperos, corantes, frutos secos, queijos, azeites, carnes d’além mares, azeitonas, picles, cocadas, fondue de chocolate com frutas frescas, pastéis de bacalhau, cerveja, vinhos… Uma orgia gastronômica! E um shopping Center de verdadeira utilidade, já que sem a boa e velha comida, ninguém vive.
E o Mercadão tem sua vizinhança febril, liderada pela Rua 25 de Março, com suas roupas, calçados, bugigangas, cacarecos, esquisitices que piscam-piscam e… seus tesouros, como o simpático “Empório Akkar”, com a bandeira do Líbano servido de toldo (e proteção).

O “Empório Akkar” iniciou sua história em 1906, quando o imigrante libanês Abib Nasser montou sua fábrica na 25 de Março. Hoje é o neto Abílio Nasser, 63 anos, que comanda a distribuição das 60 cestas de iguarias árabes por dia, que rendem mais de quatro mil doces por mês. Entrar no Empório é como estar num cantinho do Líbano, fazendo parte também da política. Não é à toa que seu Abílio ostenta camisetas do Hesbollah, adesivos da Palestina, além de várias fotos do Che Guevara na loja. “Quando eu estudava Direito na São Francisco, eu lutei contra a ditadura e o Che era nosso ícone e continua sendo”, diz com firmeza, lamentando apenas o fato de muita gente “usar a camisa dele sem conhecer a sua essência”. As lutas são antigas, mas a loja está na internet: www.emporioakkar.com.br

ACIMA: Entrada e salão da Livraria Cultura… ABAIXO: Interior da Livraria Calil Antiquária, o sebo mais antigo de São Paulo…

Livro também é mercado. E arena vibrante de idéias, plataformas, tecnologias. Num diálogo entre a tradição e a modernidade, todos nós cultuamos uma boa e sofisticada Livraria Cultura na Avenida Paulista e, também, um elegantíssimo e fino espaço no 9º. Andar do Edifício Itá, 88, na Rua Barão de Itapetininga: a “Livraria Calil Antiquária Ltda” – www.livrariacalil.com.br – o sebo mais antigo da cidade de São Paulo.

Antes de finalizar, valem dois registros: ter conhecido na calçada da PUC o camelô dos filmes piratas de Arte, o Paryat (“mensageiro”, em Tupi), 54 anos e 39 de ayahuasca, admirador de Mestre Irineu, por louvar no seu hinário “a natureza, os passarinhos e as árvores”. Também internauta – www.paryat.com.br – se acostumou a fugir da polícia. “Corro, mas com arte!”.

E depois, especialmente, ter conhecido a jornalista Rosane Pavam, editora de cultura da revista Carta Capital – www.cartacapital.com.br – para mim uma das maiores referências do jornalismo cultural brasileiro.
Bem, é isso. Agora é pegar um bom livro e um café, que ninguém é de ferro, com baunilha, leite, uma pitada de noz moscada e outra de canela… Estão servidos?

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FOTOS DOS CARTAZES DE FILME E MESTRE IRINEU: INTERNET
ROSANE PAVAM: DAMIÃO FRANCISCO
AS DEMAIS: MARCOS AFONSO
Criado em Artigos.
14 Comentários
venny on maio 16th, 2010
camarada essa matéria sobre recife, de rosane pavam esta um estouro.estive nesses pontos todos e não tinha olhado por esse angulo.
PARABÉNS !
venny cavalcante.
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GRANDE VENNY!
FICO FELIZ PELA DIVERSIDADE DOS OLHARES…
COMO DIZ O BOFF CADA PONTO DE VISTA
E’ A VISTA DE UM PONTO…
GRATO POR ESTENDER OLHARES NO VARAL!
VOLTE SEMPRE!
Maria G A Pereira on maio 16th, 2010
Saúde, meu amigo! Um abraço e muito carinho, com cheirinho de café!!
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GRATO, QUERIDA GRACINHA!
CHEIRINHO DE CAFÉ, CANELA
E MUITA AMIZADE…
GRANDE ABRAÇO!
Sueli Lopes on maio 16th, 2010
Enquanto voce curte o Starbucks ai, eu curto aqui…rs.
Abraco!
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MINHA QUERIDA SUELI!
AH…
STARBUCKS EM LONDRES É OUTRA HISTÓRIA!…
MELHOR QUE EM SEATTLE…
TALVEZ MELHOR QUE
EM QUALQUER LUGAR!…
MIL BEIJOS…
Maria Craveiro on maio 16th, 2010
Marcos, na sua próxima viagem me leve no bolso de sua camisa? Acho que será um lugar muito confortável para viver todos esses roteiros. Um abração, Maria.
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QUERIDA SOCORRO!
COMBINADO!
FAREI UM BOLSO ESPECIAL,
DAQUELES PERTO DO CORAÇÃO…
MAS COM FINAS ABERTURAS DE RENDAS
PARA VOCÊ AVISTAR AS BELEZAS COM ARTE…
GRANDE ABRAÇO!
luciahelena on maio 16th, 2010
Foi dito acima as palavras precisas deste Varal dominical (não encontro outras): “É deslumbrante os roteiro que vc descreveu…”.
Olha, senti-me fazendo este roteiro em Sampa, acompanhando-o passo a passo. Em verdade vc nos levou além. Acabei por conhecer em sua descrição espaços, personagens e imagens da vida paulistana que condensam, “no cruzamento da Avenida Ipiranga e a Avenida São João” e em tudo que se espalha ao redor e nas longetitudes que não conhecia. Mesmo tendo morado por algumas vezes em SAMPA.
Marcos, vc é incrível em sua escritura lapidada! Tens ideia que é possível ver o que vc descreve, mesmo não estando nunca lá?
Você, mais uma vez, aqueceu meu coração!!!
Beijos mil,
luciahelena
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QUERIDA LÚCIA HELENA!
ACHO QUE VOCÊ SE SENTE NOS LUGARES EM QUE FUI
PORQUE ESCREVI COM HONESTIDADE E EMOÇÃO…
ESSAS DUAS PALAVRAS (TÃO RARAS) EU ESTOU
BUSCANDO PRESERVÁ-LAS MUITO,
EM RESPEITO À MIM E ÀS PESSOAS QUERIDAS COMO VOCÊ….
QUE SENTIDO TERIA ESCREVER UM VARAL
SE NÃO HOUVESSE QUEM DISSIPASSE AS NUVENS
PARA O SOL AQUECER OS SENTIMENTOS ALI ESTENDIDOS?
VOCÊ É UMA DESSAS PESSOAS:
AFASTA NUVENS PARA CHEGAREM AS LUZES…
O SOL É QUE TE AQUECEU O CORAÇÃO…
E O MEU TAMBÉM…
GRANDE BEIJO, LU!
Wania Lilia on maio 16th, 2010
Marcos, se permite, vejo-me tomando um chocolate quente com chantily, folheando a capa e contra capa de um livro, tentando devorar a “estoria” ou historia de forma resumida hehehe (nada contra o teu cafe). SAMPA eh demais! E noos, mulheres, nao dispensamos uma boa “andada” pela 25 de marco (no minimo precisamos de um dia inteiro para perambular por laa)! Reproduzindo o teu palavreado, a 25 de marco eh uma orgia de produtos femininos (bijux, objetos de decoracao, perfumes, bolsas…dificil de enumerar rsrsrs).
Um grande abraco e obrigada, mais uma vez, por enganar-nos a fadiga, o desanimo e fazer-nos acreditar que acabamos de chegar de uma viagem prazeirosa!bjus p vce e Pat!
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QUERIDA LÍLIA!
É EXATAMENTE ISSO!
EXATAMENTE ISSO: A 25 DE MARÇO É UMA MULHER!
VOCÊ FOI NA ESSÊNCIA!
QUANTO A VIAJAR CONTIGO É UM ENORME PRAZER…
EU E PATRYCIA ESTAREMOS NA 25 DAQUI UNS DIAS…
TE LEVAREMOS EM NOSSOS CORAÇÕES
(E EM CADA LOJA!!!!!, MARAPAZ!!!!)
GRANDE BEIJO!
luciahelena on maio 16th, 2010
Errata: Depois da palavra condensam acima (escrevi algumas coisas) que deveriam desembocar em meu raciocínio em: tradição e modernidade de modo singular.
É, sabemos, a pressa é inimiga da perfeição. Vocês amazônidas sabem melhor que todos nós.
Mesmo adorando SAMPA (principalmente levando em conta o incrível roteiro que vc fez) jamais esquecerei um dos mais importantes aprendizados que fiz no Acre ( resultando em 1986 tema de minha Tese de Mestrado) a idéia de que o ritmo temporal no Acre segue o movimento dos rios – os movimentos da natureza. Talvez pelo contraste, eu cheguei a Rio Branco vinda de São Paulo (da PUC, donde fiz o Mestrado em 1978-1980), minhas fortes vivências e lições de vida foram no Acre que até hoje me deixa embebida em profundo encantamento. Em SAMPA e, aqui no sul, já não temos mais essa temporalidade (a não ser em algumas comunidades tradicionais).
Isso implica reconhecer que com todo o encanto de São Paulo, vivemos por aqui (no sudeste e sul) o corre-corre urbano que, há muito, já rompeu com o “tempo natural”, com o tempo essencialmente humano. E o tempo do relógio lamentavelmente prevalece. O tempo, por aqui, já não mais corre manso, nem em Sampa, nem em Curitiba.
Meu, e eu que só ía fazer uma pequena errata… mas…
Um forte abraço saudoso de vc, dos demais amigos e do Acre.
Que o calor deles te envolvam novamente em seu reorno.
luciacreana
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QUERIDA LU!
MAIS UMA VEZ FIQUEI SEM PALAVRAS…
VOCÊ SABE QUE EU TE TENHO COMO
A MAIOR AUTORIDADE NO BRASIL
NO DIÁLOGO ENTRE OS SABERES
TRADICIONAL E MODERNO…
VOCÊ SABE QUE É ISSO MESMO.
NO ENTANTO, E MELHOR,
VOCÊ ACABA DE FAZER POESIA NO
COMENTÁRIO…
ISSO É DIÁLOGO DE SENTIMENTOS,
INDEPENDENTE DA DISTÂNCIA,
DO TEMPO E DO ESPAÇO!
MUITO GRATO E GRANDE BEIJO!
Rosane Pavam on maio 16th, 2010
Olá, caro. Muito obrigada pela carinhosa menção. E parabéns pela
cobertura! Grande abraço.
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CARA ROSANE!
O PRAZER FOI TODO MEU
E A ALEGRIA VERDADEIRA…
OUTRO GRANDE ABRAÇO!
Anny on maio 17th, 2010
Oi querido amigo, que saudades de vc. Faz tempo que desejo entrar em contato com, tenho muitas saudades dos nossos bons tempos. Bjus
Sua amiga de sempre Anny Santos
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QUERIDA ANNY!
SAUDADES TAMBÉM!
ESTE O MEU E-MAIL:
mafonsopontes@gmail.com
ESCREVA E VAMOS COMBINAR!
E QUE BOM VOCÊ NO VARAL!
BEIJOS!
Iara Vasconcellos on maio 18th, 2010
Muito bom, Marcos! Gosto muito de seu estilo ao descrever suas aventuras!
Estava aguardando o “segundo capítulo” da novela “Sampa Cultural”.
Grande abraço,
Iara
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MINHA QUERIDA AMIGA E COLEGA IARA!
VINDO DE UMA JORNALISTA,
SEU COMENTÁRIO ME ENCHE A ALMA…
QUE BOM TER GOSTADO DA
“NOVELA” CULTURAL DE SUA CIDADE!
GRANDE ABRAÇO!
Maristela Calil on maio 19th, 2010
Prezado Marcos
Muito obrigada pela sua mensagem. Fiquei muito feliz pela sua visita em nossa livraria. Gostaria de informar que gostei muito do roteiro feito em seu jornal com a citação de nossa livraria.
Grata, fico aguardando em breve sua nova visita, com grande estima e consideração,
at.
maristela calil.
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PREZADA MARISTELA!
O PRAZER FOI TODO MEU
EM TER IDO AO SEBO MAIS
ANTIGO DA CIDADE DE SÃO PAULO,
PELO ATENDIMENTO, ELEGÂNCIA,
REFINO E MUITA, MUITA, CULTURA…
INÍCIO DE JUNHO ESTAREMOS AÍ…
GRANDE ABRAÇO!
Leão on maio 25th, 2010
Amigo Marcos Afonso, lendo o que está exposto no VARAL DE IDEIAS lembrei-me da historinha do Zeze de Tarauacá, em relação ao suco de goiaba que ele pediu lá em São Paulo. Lembra-se? Muito legal. Um abraço amigão!!!
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GRANDE AMIGO LEÃO!
O SUCO DE GOIABA DO ZEZÉ!…
QUE DELÍCIA DE HISTÓRIA…
PENSO, COM AUTORIZAÇÃO DELE,
UM DIA ESTENDÊ-LA NO VARAL, O QUE ACHA?
AFINAL, NÃO SE TRATA SOMENTE DO “RARO” SUCO,
MAS DE UM MOMENTO IMPORTANTE DO
MOVIMENTO ESTUDANTIL BRASILEIRO…
GRANDE ABRAÇO, AMIGO DE LUTAS E VIAGENS!
Antonia on junho 21st, 2010
Marcos quando leio seus textos fico com vergonha da minha falta de cultura.Adoro cinema,dança,música, arte de uma forma geral me encanta.Mas sou uma escrava da sala de aula e dos afazeres de casa.Somente lendo o Varal bebo um pouco de sua experiência cultural. Obrigada.
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QUERIDA ANTONIA…
FICO SEM PALAVRAS…
MAS IMENSAMENTE FELIZ
EM VOCÊ ESTAR GOSTANDO
DO NOSSO VARAL…
É QUE OS SEMELHANTES
SE ATRAEM…
O VARAL É ESCRITO PARA
PESSOAS COMO VOCÊ…
MIL BEIJOS E VOLTE SEMPRE
(EU ESCREVO TODOS OS DOMINGOS)…

Socorro Fonseca on maio 16th, 2010
Marcos estou vivendo essa São Paulo. É deslumbrante esse roteiro que você descreveu. Da próxima vez que vieres por aqui avisa. Vou te apresentar outros roteiros. Tô saindo agora para curtir a VIRADA, dentre outros eventos, não perderei a CANTORIA, ABBAS, Cine Arouche e etc…
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QUERIDA SOCORRO!
BOA VIRADA EM SAMPA!
NÃO TE INVEJO, MAS ADMIRO
A TUA OPORTUNIDADE
(COMO DIZ L. F. TELES… risos …)
DANCE, CURTA, ENDOIDE, POR NÓS!
BEIJOS E ABRAÇOS…
E QUANDO FOR POR AÍ,
FAREI O TEU ROTEIRO..
OUTRO BEIJO.