NÃO SEJA IMPARCIAL, SEJA HONESTO…
Publicado em maio 29th, 2010.
Richard Avedon (1923-2004)
Comandante Elson Martins mandou-me agora sentar praça na cavalaria do jornalismo cultural e já foi passando a Ordem do Dia, prontamente aceita por este soldado.
Fernanda, a simpática filha do Escócio, amarrou sua canoa e subiu os barrancos da Biblioteca da Floresta em busca de palestrante para a disciplina de Redação Jornalística, pilotada pela professora Juliana Losego, lá no “Campus Espacial” (o da velha canção do Beto Brasiliense).
Compadre Elson, elegante adversário das falas, imediatamente me telefonou: “Olha, o jornalista cultural é você, socorra as meninas!”. Ponto final. Ordem dada.
Estou pronto.
Para tanto, empunhei uma “foto-palestra” carregada com dezenas de slides e algumas músicas para arrematar – bem exagerado, bom poder de fogo – e talvez essa semana já possa ir ao Campus de batalha. Estou mais entrosado com o teatro de operações, tendo em vista que já dei essa palestra ano passado no mesmo curso de Comunicação da UFAC, na turma da Veriana, filha do Toinho (estamos mesmo ficando velhos!!).

Mas, vamos ao sério.
Irei começar pelo óbvio ululante: para ser jornalista deve-se ter adquirido – de preferência na tenra idade – a mania de escrever. Materializar os fatos na linguagem, na descrição e no registro. Isso vem de longe, mas ganhou força no Renascentismo, quando começamos a escanear com os olhos e escrever as novas luminosidades que fluíam pela humanidade – ao menos nas cabeças mais afeitas à combustão – com novas tecnologias e ampliação da divulgação dos conhecimentos.

Todos nós somos um livro aberto e quando escrevemos, temos uma posição socratiniana: mostramos o que conhecemos de nós mesmos e como vemos o mundo e a “notícia factual”, na expressão de Mino Carta. Parafraseando o pensador francês Jean Juarès, “não se escreve o que se sabe, mas também e, sobretudo, o que se é”.
E é aqui que vem a gênese da Ética.
Como tratar, no ato de escrever, as invejas, os individualismos e as vaidades? Como assegurar nossa identidade – sem as máscaras – e resistir aos Ctrl C e Ctrl V do oráculo Google? O que fazer quando se deve diferenciar mito de evidência? Tudo, para que não nos transformemos em estáticos muros ou não nos percamos em desertos?

Hoje, mesmo com a bagunça climática, devemos ver o mundo com suas diversas estações, porque entre o verão e o outono milhões de paisagens acontecem. Especialmente agora com a Internet.
Em um curtíssimo espaço histórico (50, 70 anos não são nada) saímos da linotipo e da Corona para a longa estrada da internet. O próprio substantivo Navegação toma outros sentidos. Uma garota na praia pode mandar uma foto do notebook para o twiter do namorado que está lá no alto, em seu parapente, enquanto um avião é visto além das montanhas que encobrem um céu lotado de satélites e na linha azul do horizonte, um preguiçoso cargueiro faz a sua rota no mar…

É muita evolução. Muita máquina. Pouca paixão, muito dinheiro. Rápidas construções de ícones (como se eles não envelhecessem), farto fundamentalismo, futilidades, entretenimento vulgar e pseudo-cultura. O Fradim do Henfil deve estar mandando “Top! Top! Tops” celestiais para a balbúrdia… risos …
Então. Como fazer a soma compromisso + preservação + promoção da ética nessas manipuladas realidades?
Primeiro: não cair no desespero. Lembro bem do nosso Chico Pop que, com descontração, arte e muita criação, registrou e inflamou o traço cultural acreano em plena ditadura militar. O Chico Pop “vivia” as fontes, ele “era” a fonte. Hoje, por exemplo: qual jornalista pegou um ônibus de linha (carro da redação não vale) para Xapuri, parou no Entroncamento, fez frete numa Toyota ou regateou com um motoqueiro para ir até o Seringal Cachoeira entrevistar a família da Dona Cecília Mendes que cuida do programa Arca da Leitura em plena floresta, distribuindo Machado de Assis, Drummond, Monteiro Lobato e até Shakespeare às crianças? (não copiem, já estou preparando a matéria… olhem lá!).
Seringal Cachoeira, Xapuri: família de Dona Cecília (tia do Chico Mendes) distribui Machado de Assis e Shakespeare às crianças, no programa Arca das Letras…
Segundo: deve-se estudar, se informar com a filtragem necessária, ter autonomia, participar de congressos, encontros e ler, ler, ler… (e se você não achar que é muita besteira, tente aprender a tocar um instrumento). E alimente sempre a capacidade de se admirar com as coisas, com o mundo e com as pessoas (para que Platão – contentemente emocionado – se debulhe em lágrimas, como escreve minha querida colunista Roberta Lima!)…
Contudo e por fim, o futuro do jornalismo é chateadamente incerto (especialmente o impresso). Acabará o jornal? SIM! Mas continuará de outra forma, como o teatro, que se adaptou frente ao cinema e à TV. De certa forma, parece que o jornalismo está atônito. Tudo pode e deve mudar, melhor: se transformar.
Acabo de participar do II Congresso de Jornalismo Cultural realizado na PUC de São Paulo, promovido pela revista Cult. Digo sem arrogância e desilusão: a única palavra que me vem à mente quando comparo este congresso ao do ano passado é: REPETIÇÃO.
Estamos repetindo, repetindo, porque procuramos saídas. E isso é bom. Em algum momento, um conjunto, um acúmulo de análises e experiências, apresentará o início de outro processo.

Quando? Quem se arrisca?
Mas nem tudo está perdido ou achado.
Mesmo no nevoeiro, “tempestades, raios e trovões” (na pena de Castro Alves), não devemos esquecer o sentimento maior de todas as existências: preservar e promover a Ética.
E aí me vem novamente outra síntese genial, daquelas que servem para calar as bobagens de jornalismo “isento”, “eqüidistante”, etecétera e tal: – “No jornalismo não há imparcialidade, há honestidade”, tinia nas teclas o francês Éduard Bailby.
E o melhor da coisa: lembrar sempre o velho Platão e seu Mito.
O fundo da Caverna pode estar na sua sala.
Ou na sua redação.
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11 Comentários
Marlete Lopes on maio 30th, 2010
Li o Varal e não poderia deixar de dizer Que texto bacana. Ao Lê-lo vi sua almaa nele.
Bjs
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NOSSAS ALMAS SEMELHANTES,
QUERIDA FILÓSOFA MARLETE!
MIL BEIJOS!
Elson Martins on maio 30th, 2010
Olá, cumpadre;
Foi a primeira coisa que li neste domingo, com sabor de jornal impresso
colocado na caixa dos correios. Obrigado pela referência ao meu nome (e pela patente); mas
a verdade é que, se você não existisse, eu estaria em apuros. Além de jornalista cultural você
é professor; e dos que conheço, o melhor.
Um abraço,
Elson Martins
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GRANDE CUMPADRE…
GRATÍSSIMO PELO “PROFESSOR”,
PATENTE QUE MUITO ME ORGULHA!
SEMPRE ÀS ORDENS,
SEU SOLDADO!
sérgiod e carvalho on maio 31st, 2010
Olá Marcos,
Este texto deveria ser leitura obrigatótia em algumas redações por aí. Esta honestidade na escrita deveria ser presente em todos os que escrevem, jornalistas, professores, filósofos. Este seu texto foi me de grande utilidade, ando um pouco em crise com os meus escritos, quem sabe me expondo demais ?! Mas é assim , mesmo né, querido amigo, temos de buscar esta sinceridade pulsante em nossas palavras. Te recomendo um texto de Caio Fernando Abreu, se já não o leu, chama-se Carta ao Z´zim, uma ótima inspiração para os que escrevem
http://www.releituras.com/caioabreu_carta.asp
Um abração do amigo
Sérgio de Carvalho
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QUERIDO AMIGO SÉRGIO,
NOSSO CINEASTA DA AMAZÔNIA!
LEREI O TEXTO DO CAIO ABREU…
QUANTO AO SEU COMENTÁRIO
PERCEBO QUE TUDO É UMA SOMA…
PATRYCIA SEMPRE DIZ QUE O VARAL
É IMPORTANTE PARA MUITA GENTE…
ENTÃO TER VOCÊ COMO LEITOR
E SE FORTALECENDO NO VARAL,
ISSO É MESMO SÉRIO!…
MUITO GRATO POR TUDO!
Camila on maio 31st, 2010
Olá
é uma grande alegria ler os seus textos, preenche-me de cultura e sua escrita me inspira
grata
Camila Patah
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QUERIDA CAMILA!
FICO MUITO FELIZ COM O SEU
COMENTÁRIO QUE TÃO BEM
DESCREVE SUA SENSIBILIDADE…
SEMPRE PENSAMOS EM VOCÊ,
ESPECIALMENTE QUANDO OUVIMOS
AQUELE CD QUE,
TÃO GENTILMENTE TU NOS OFERTOU
NA IMERSÃO DO SERINGAL CACHOEIRA!
GRANDE ABRAÇO E FIRME NA LUTA!
BEIJOS!
Giselle Lucena on maio 31st, 2010
Professor,
antes que seu e-mail chegasse à minha caixa,
meu pai já chegou com o jornal em mãos e estendeu o varal na minha mesa, apontando para o paragrafo em que vc se refere ao nosso Chico Pop… São esses detalhes que ficam, desse calor humano, essa coisa palpável…
E, bem, eu te vejo hj na palestra! Nao fui convidada, mas, se é palestra de Marcos Afonso, se é jornalismo, se é cultura… eu vou sim! vou merrrrmo!
bjs
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QURIDA GISELLE,
QUE BOM REVER-LHE ESTENDIDA DO VARAL
E ABRAÇANDO-A NO SEGINGAL DA BIBLIOTECA
DA FLORESTA, NESTA MANHÃ CHILENA…
O VARAL “DE PAI PARA FILHA”… SÓ O
CHICO POP MESMO!
SOBRE A PALESTRA, VOCÊ NÃO PRECISA
DOS CONVITES, SERÁ UMA HONRA…
SERÁ TERÇA OU QUARTA, NO CAMPUS ESPACIAL…
MIL BEIJOS CHICOPOPIANOS!…
Roberta Lima on junho 1st, 2010
Meu eterno e sábio professor,
Me senti lisonjeada em ter meu humilde nome citado em sua bem escrita coluna semanal. Obrigada pelo carinho e consideração e saiba que lhe admiro muito, não só pelo profissionalismo, mas acima de tudo pela pessoa íntegra e querida que é.
Fica com Deus e beijos no coração.
Roberta Lima
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MINHA ROBERTA:
AMIGA, COLEGA E SEMPRE ALUNA QUERIDA…
SUAS PALAVRAS ME EMOCIONARAM…
AINDA TE VEJO, SENTADA NO CANTO ESQUERDO
DA SALA, PRÓXIMO À JANELA, NO META…
LEMBRA?
E HOJE: TROCAMOS FIGURINHAS E AFAGOS
ATRAVÉS DE NOSSAS COLUNAS!
FICO MUITO ORGULHOSO DE TER
SIDO SEU PROFESSOR E AGORA COLEGA!
MIL BEIJOS!
Stella Cordovil on junho 1st, 2010
Boa Noite!
Caro Marcos,
Novamente parabenizo pelo seu Artigo, especialmente pela referencia do MITO DAS CAVERNAS.
Vc está bem? Como vai São Paulo?
Abraço terno,
Stella
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QUERIDA STELA!
MUITO GRATO PELOS
PARABÉNS E PLATÃO AGRADECE!
ESTOU BEM E NOS
PREPARANDO PARA A VIAGEM.
TERNO ABRAÇO PARA TI…
Gilvan Almeida on junho 2nd, 2010
Marcos:
Só hoje pude desfrutar de mais esta “peça” do Varal. Senti-me instigado a escrever, já desde o título. Lembrei da idade que meus filhos tinham quando começaram a me perguntar se o que a TV estava mostrando era verdade ou não. Acredito que a maioria das pessoas não faz este questionamento, e engole tudo o que a mídia impõe. Para mim, a imparcialidade é a justiça perfeita, e acredito que não há, até o momento, nenhum ser humano, ou sistema jurídico, que a pratique. Portanto, também não acredito em mídia imparcial: toda ela serve a algum interesse, e a maioria de forma desonesta. Mesmo assim continuo acreditando no profissional honesto, que, em sua formação precisa se capacitar, da forma como você colocou, e também aprender a dizer a verdade, com arte, prudência e equilíbrio.
Achei legal a forma construtiva que você se referiu à repetição no Congresso em São Paulo. Também acredito que o aprendizado real da vida é feito pela repetição. Raramente aprendemos de primeira. É só olharmos as nossas cicatrizes – físicas e sentimentais.
Abração amigo
Gilvan Almeida
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QUERIDO GILVAN,
MEU FILÓSOFO DO COTIDIANO…
SEM PALAVRAS PARA O SEU COMENTÁRIO…
CONCORDO COM TUDO.
SÓ ACRESCENTARIA UMA FRASE GENIAL
DO MINO CARTA, DESTINADA ÀQUELES
JORNALISTAS QUE VIBRAM COM A MANIPULAÇÃO,
A DESONESTIDADE E A ANTI-ÉTICA:
“NESSE GRUPO EXISTEM DOIS TIPOS:
OS QUE PENSAM QUE SÃO DEUS;
E OS QUE TEM CERTEZA”…
TENHO ESPERANÇAS E A CERTEZA
DA FORÇA DAS “REPETIÇÕES” COMO
VOCÊ TÃO BEM COLOCOU!..
ABRAÇOS FILOSÓFICOS!
Gyglyane on junho 2nd, 2010
Aodrei a sua palestra de ontem na UFAC, foi sensacional. Parabéns.
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QUERIDA GYGLYANE!
SAIBA QUE SEU ELOGIO
FEZ A ALEGRIA DO MEU DIA!
FICO FELIZ EM TER SENSIBILIZADO
ESSA FUTURA JORNALISTA E COLEGA.
ENCONTRO-ME AO SEU DISPOR (E DA TURMA DA UFAC), SEMPRE.
MEIL BEIJOS.
Antonia on junho 21st, 2010
Olá Marcos não o conheço pessoalmente, mas já tive o prazer de assistir aulas suas na biblioteca do sesc com os alunos do META.Você disse a todas as turmas:” Essa é minha melhor turma” Achei lindo!. Sempre te admirei muito, mesmo quando era político. Adorei seu texto.
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QUERIDA ANTONIA!
VOCÊ ACABOU DA FAZER
A ALEGRIA DO MEU DIA!!!
MUITO GRATO PELO SEU CARINHO…
VENHA SEMPRE AO VARAL,
ELE É NOSSO!
GRANDE BEIJO…
PS: Eu amo dar aulas!…

Ozi on maio 30th, 2010
Marcos, estou aqui meio com soninho pq a Anaís saiu de madrugada para uma visita a budistas de Plácido de Castro e eu fiquei acordada desde então. Orei e coisas domésticas rsrsrs agora vou nadar e volto depois pra ler essa preciosidade que pra mim será a forma de nunca acabar aquela sensação gostoso de sua palestra mágica de ontem. Bom domingo!
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QUERIDA OZI!
A PALESTRA QUE DEI ONTEM
PARA VOCÊS, BUDISTAS,
FOI MARAVILHOSA, MUITA SINTONIA…
FIQUEI FELIZ DE VER-TE COM TEU
MAIOR TESOURO: SUA FILHA!
BOM DOMINGO PARA TI…
E SE PRESTAR ATENÇÃO,
ESTE VARAL TEM TUDO A VER
COM A PALESTRA DE ONTEM.
CONCORDA?
BEIJOS!